Olifante (trompa de caça)

Nº de referência da peça: 
F1340

Serra Leoa
ca. 1490-1530
Marfim entalhado
Comprimento: 30,5 cm

Oliphant (hunting horn)
Sierra Leone
ca. 1490-1530
Carved ivory
Length: 30.5 cm

As primeiras obras de arte que resultaram do encetar de relações comerciais entre os portugueses e as populações etnicamente diversas da África Ocidental, desde a Costa da Alta Guiné aos Reinos do Congo e Angola, são os primeiros objectos verdadeiramente multiculturais resultantes da expansão ultramarina portuguesa. Quanto aos marfins entalhados para a nova clientela portuguesa, a sua atracção residia sobretudo no seu material, dada a alta valorização das qualidades artísticas do marfim de elefante, mais sublinhado pela sua relativa raridade na Europa até então. Durante o Renascimento, a qualidade dos materiais e a superior perícia técnica posta na sua transformação estavam no âmago do consumo das elites europeias, sendo o caso também dos objectos produzidos um pouco por todo o mundo e que chegavam à Europa a bordo dos navios portugueses a partir dos finais do século XV.
Tem havido, nas últimas décadas, um considerável interesse académico pelos marfins entalhados produzidos na África Ocidental sob influência portuguesa, mais ou menos directa, nos inícios do período moderno. Estudos de William Fagg, Ezio Bassani, Kathy Curnow, Peter Mark, Jean Michel Massing e Kate Lowe, entre outros estudiosos, oferecem-nos novos e valiosos contributos sobre o tema. O primeiro, e provavelmente o maior e mais importante centro de produção de marfins entalhados da costa ocidental africana foi identificado como a actual Serra Leoa, cujo lugar de destaque é fácil de compreender se tivermos em conta a cronologia da exploração costeira portuguesa e a sua riqueza em marfim de elefante. Tem havido um consenso geral quanto à identificação dos artesãos responsáveis por esta produção com os povos Temne e Bullom da Serra Leoa, tanto através de fontes literárias e documentais coevas, como de comparações estilísticas com produções artísticas anteriores da mesma região, nomeadamente com pequenas esculturas em pedra conhecidas como nomoli. Duarte Pacheco Pereira (1460-1533), capitão, soldado, explorador e cosmógrafo português, no seu Esmeraldo de situ orbis, escrito por volta de 1506, refere que na Serra Leoa, junto ao rio Kolenté, fazem uns belos tapetes de fibra de palmeira e também colheres de marfim, acrescentando que os Bullom fazem as mais subtis, ou seja, as mais delicadas e mais bem feitas colheres de marfim do que em qualquer outro lugar. O tipógrafo de origem alemã Valentim Fernandes († ca. 1518-1519), escrevendo entre 1506-1510, com base em relatos de Álvaro Velho do Barreiro sobre a Serra Leoa, refere que os negros desta terra são muito subtis nas artes manuais, fazendo saleiros e colheres de marfim, e tudo o que lhes é apresentado em desenho eles o cortam, isto é, esculpem, em marfim.
Os olifantes ou trompas de caça, com sua forma e iconografia de origem europeia, adaptadas de gravuras com cenas de caça dos finais do século XV e inícios do século XVI, estão entre os objectos mais fascinantes produzidos neste contexto na Serra Leoa. O presente exemplar, que apresenta as armas da casa real portuguesa, é excepcional pelo seu desgaste, que atesta a real utilização de tais objectos, em contraste com alguns exemplares que sobreviveram imaculados em colecções principescas renascentistas ou Kunstkammern.

Hugo Miguel Crespo

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The first artworks resulting from the initial commercial contacts between the Portuguese and the ethnically diverse West-African populations living between the Upper Guinea Coast and the Kingdoms of Kongo and Angola, are the earliest truly multi-cultural objects that emerge from the Portuguese overseas expansion. As for the carved ivory objects made for the Portuguese clientele, their attraction lay primarily in the raw material, given the time-honoured appreciation for the manufacturing and artistic qualities of elephant ivory, reinforced by its relative rarity in Europe until then. During the Renaissance, it was the quality of the materials and the exquisite craftsmanship that lay at the heart of the European elites’ consumerism, and this is also true for objects made worldwide, which arrived in Europe aboard the Portuguese ships from the late fifteen century onwards.

Over the last few decades there has been considerable academic interest in West African carved ivories, produced under more or less direct Portuguese influence at the dawn of the early modern period. Research by scholars such as William Fagg, Ezio Bassani, Kathy Curnow, Peter Mark, Jean Michel Massing, and Kate Lowe, among others, have provided new and valuable insights on the subject.
The first, and probably the largest and most important ivory carving centre on the West African coast has been identified as present-day Sierra Leone, a fact that is easily understood considering the chronology of the Portuguese coastal exploration and the abundance of elephant ivory. There has also been consensus regarding the attribution of the craftsmen origin to the Temne and Bullom peoples of Sierra Leone, based on contemporary literary and documentary sources, and stylistic comparisons with earlier productions from the same region, namely of small sized stone sculptures known as nomoli. In his work Esmeraldo de situ orbis, written around 1506, Duarte Pacheco Pereira (1460-1533), a Portuguese sea captain, soldier, explorer, and cosmographer, refers that in Sierra Leone, next to the Kolenté river, they make some very pretty palm fibre mats and also ivory spoons, adding that the Bullom make the most subtle, that is, the most delicate and the better made spoons than elsewhere. Writing between 1506 and 1510, based on reports by Álvaro Velho do Barreiro regarding Sierra Leone, the German-born book publisher Valentim Fernandes († ca. 1518-1519), states that the black men of this land are very subtle in manual arts, namely in making ivory salt cellars and spoons, and anything presented to them in drawing they cut it, that is, carve it, in ivory.

Oliphants, or hunting horns - of European-derived imagery and shape - adapted from late fifteenth and early sixteenth-century prints depicting hunting scenes, are amongst the most fascinating objects made in this context in Sierra Leone. The present example, featuring the Portuguese royal coat of arms, is exceptional for its surface wear and tear, a testimony to the effective practical use of such objects, that contrasts with pristine examples surviving in Renaissance princely collections or Kunstkammern.

  • Arte Colonial e Oriental
  • Artes Decorativas
  • Marfim, Tartaruga e Madrepérola

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