Colheres Bini-Portuguesas

Nº de referência da peça: 
F1337, F1335, F1336

Marfim entalhado
Reino do Benim (no sul da actual Nigéria), século XVI
A – C.: 26,5 cm
B – C.: 24,5 cm
C – C.: 25,0 cm
A Proveniência: S.P., Porto e colecção particular, Lisboa
B Proveniência: J.J. Felgueiras, Porto e colecção particular, Lisboa
C Proveniência: J.J. Felgueiras, Porto e colecção particular, Lisboa

A, B, e C publicadas em: Ezio Bassani African Art and Artefacts in European Collections, 1400-1500, London, British Museum Press, 2000, n. 812, 813 e 814
C publicada em: A.M. Jordan and K. Lowe, The Global City, P.H. Publishers 2015, p. 168; Exhibited: in A Cidade Global, Lisboa no Renascimento, MNAA, Lisboa 2017, CAT 48, p. 119

Carved ivory
Kingdom of Benin (in present-day Southern Nigeria), 16th century
A – L.: 26,5 cm
B – L.: 24,5 cm
C – L.: 25,0 cm
A Provenance: S.P., Porto and Private collection, Lisbon
B Provenance: J.J. Felgueiras, Oporto and Private collection, Lisbon
C Provenance: J.J. Felgueiras, Oporto and Private collection, Lisbon

A, B, and C published in: Ezio Bassani African Art and Artefacts in European Collections, 1400-1500, London, British Museum Press, 2000, n. 812, 813 e 814
C published in: A.M. Jordan and K. Lowe, The Global City, P.H. Publishers 2015, p. 168; Exhibited: in A Cidade Global, Lisboa no Renascimento, MNAA, Lisboa 2017, CAT 48, p. 119

As colheres estão entre os primeiros objectos domésticos, inspirados em formas naturais de conchas ou folhas - e, ao invés de partilhadas à semelhança de pratos e facas, no Renascimento as colheres eram tidas como bens individuais preciosos. Não é pois de estranhar que as colheres, em especial quando de materiais exóticos, raros e preciosos como o marfim de elefante, estejam entre os primeiros objectos produzidos na África Ocidental para exportação para a Europa. Os registos sobreviventes de direitos aduaneiros sobre colheres de marfim fabricadas em África, datados de 1504-1505, estão entre os primeiros registos da chegada à Europa de tais objectos feitos para exportação para o mercado português. O seu consumo, não como artigos de luxo ou objectos de colecção principesca, era aparentemente generalizado, pois chegavam todos os anos em grande número pela mão de simples marinheiros, soldados de alta e principalmente de baixa patente, mercadores e religiosos que regressavam a Lisboa de uma sua estadia em terras africanas.
O fascínio por materiais exóticos e preciosos e pela sua superior qualidade artística fica claro nas colheres que sobrevivem entalhadas no sul da actual Nigéria, embora não seja claro se tais objectos foram produzidos apenas para exportação para a Europa. Ao contrário daquelas feitas pelos povos Bullom, Temne e Sapi da Serra Leoa, copiando protótipos europeus, as colheres ditas bini-portuguesas, como estes três magníficos exemplares, são provavelmente de origem local quanto à forma. James Welsh, o mestre do navio inglês Richard de Arundel, no relato de uma sua viagem à costa do Benim em 1588, menciona as muitas e belas esteiras e cestas que eles fazem, e colheres de presas de elefante muito curiosamente entalhadas com diversos tipos de aves e animais sobre elas. A descrição de Welsh parece corresponder de às colheres tradicionalmente consideradas de fabrico Ẹ̀dó, embora saibamos coo ele próprio nunca se aventurou para a cidade do Benim, permanecendo a bordo na região costeira onde provavelmente essas colheres seriam feitas, seja por artesãos Ẹ̀dó (ou por outros grupos étnicos relacionados e geograficamente contíguos como os Yorùbá, os Itsekiri e os Urhobo), sem muita intervenção europeia na sua concepção e criação.
A natureza filiforme das finas hastes contrasta com a secção superior curva das suas conchas carenadas finas como papel. Melhor preservada do que as outras duas, com a parte superior recurvada da concha intacta, um apresenta uma haste simples em forma de vareta com um peixe como remate. Na haste de uma outra vemos um crocodilo agarrando uma mão humana segurando firmemente uma manilha. Manilhas ou “braceletes” eram itens de cobre comumente usados pelos europeus no comércio com os africanos surgindo frequentemente nos chamados “bronzes do Benim” - na verdade placas de liga de cobre usadas para decorar o palácio do Oba, produzidas precisamente com este tipo de cobre importado de origem europeia. E na terceira, mais complexa na sua iconografia, vemos um pássaro de bico e pernas longas alisando suas penas enquanto se empoleira na cabeça de um antílope. Esta ave pode ser identificada com a famosa Ave Profética (ahianmwen-oro) da mitologia régia do Benin, um calau africano ou bico-de-serra-preto (Lophoceros fasciatus). À semelhança de outras obras produzidas pelos povos Yorùbá e Ẹ̀dó, a iconografia destas três colheres, além de baseadas numa série de trocadilhos visuais e conceptuais, podem veicular algumas histórias antigas, mitos e saberes passados de geração em geração, provavelmente na forma de provérbios. De certa forma, a riqueza imagética deste tipo de objectos quotidianos, junto com alfaias religiosas e obras de arte mais complexas, compensam a ausência de escrita nestas sociedades, apoiadas fortemente em ricas tradições orais.

Hugo Miguel Crespo

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Spoons, of stylised shell or leaf inspired shapes, are a type of domestic utensil that, as soon as the Renaissance, rather than being shared, as happened with plates and knives, were treasured personal possessions for the use of their owners.
It is therefore unsurprising that those made from exotic rare materials, such as elephant ivory, were some of the earliest objects produced in Western Africa for the European market.
Extant customs records referring duties on African ivory spoons, and dating from 1504-1505, are amongst the first mentions to such objects made for exporting to Portugal.

Their use, not as luxury or princely collecting items, was apparently widespread as they arrived in large numbers every year, in the hands of common sailors, high and mostly low-ranking soldiers, merchants and clergymen returning to Lisbon from their African sojourn.

The allure of the exotic and precious raw material, as well as their superior artistry, is evident from surviving spoons, such as our three superb examples, carved in the 16th century in the region that now corresponds to southern Nigeria. It is nevertheless uncertain if these so called Bini-Portuguese spoons - unlike those made by the Bullom, Temne and Sapi peoples of Sierra Leone, which are unequivocally modelled after European prototypes - were intentionally produced for exporting to Europe, as their designs do probably have a local origin. In an account of a trip to the coast of Benin in 1588, James Welsh, chief master of the English ship Richard of Arundel, refers the many pretty fine mats and baskets that they make, and elephants tusk spoons very curiously wrought with diverse proportions of fowls and beasts made upon them. Welsh's description seems indeed to correspond to the spoons traditionally considered to be of Ẹ̀dó manufacture, although he himself did not venture into Benin City nor disembarked, remaining onboard along the coastal region where most probably such spoons were made, either by Ẹ̀dó craftsmen (or by other related and geographically contiguous ethnic groups like the Yorùbá, the Itsekiri and the Urhobo), without much European intervention in their design and creation.

The thread-like nature of their slender stems or handles, contrasts with the curved upper section of their paper-thin ridged bowls. Better preserved than the other two, with the curved upper section of the bowl intact, one spoon features a simple rod-like stem with fish-shaped finial (A).

Another features a crocodile snapping up a human hand firmly grasping a “manilla”. In Portuguese, “Manillas” or manilhas (literally, “bangles”) were copper items commonly used by the European when trading with the Africans, which are often depicted in the so-called “Benin bronzes” – they were actually copper alloy plaques destined for decorating the Oba’s palace, that were produced by using this European imported copper (B).

  • Arte Colonial e Oriental
  • Artes Decorativas
  • Marfim, Tartaruga e Madrepérola

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