Bracelete

Nº de referência da peça: 
F1151

Latão fundido
Edo, Reino do Benim (actual Nigéria), séculos XVII-XVIII
Dim.: 12,5 x 8,0 x 8,0 cm
Proveniência: Colecções Jacques Kerchache e R. Quintela

Armlet
Brass
Edo, Kingdom of Benin (present-day Nigeria), 17th-18th century
Dim.: 12,5 x 8,0 x 8,0 cm
Provenance:Jacques Kerchache and Rui Quintela collections

Raro e importante bracelete em latão fundido, provavelmente de um par, destinado a um alto nobre ou régulo da corte dos reis do Benim, e produzido na capital, Edo (na actual Nigéria, hoje Benin City), provavelmente durante o século XVII.
Produzido segundo a técnica da cera perdida, este bracelete apresenta uma composição em módulo cujo motivo principal é a representação icónica de um português, provavelmente um oficial ou soldado quinhentista, vestindo gibão e colete com seus botões proeminentes, calças curtas golpeadas e chapéu redondo, com as mãos à altura das ancas segurando na direita o que parece ser uma espada.
Utilizadas neste tipo de objecto cerimonial, as figuras de portugueses são uma representação alegórica, dado que os estrangeiros, vindos das águas e de certa forma ligados à divindade do mar Olokun (simbolizado pela cor branca), eram considerados figuras protectoras, quase mágicas e talismânicas, associadas ao grande rei-guerreiro do século XVI, o oba Esigie (r. 1504-1547) que contou com soldados portugueses na guerra contra o ata (ou rei) do reino de Idah, reino que incorporou ao seu.
As figuras de portugueses, invariavelmente representados com narizes aduncos, e olhos proeminentes e amendoados, surgem, ora em posição vertical, ora invertidos (como se de um padrão se tratasse), sobre fundo vazado de encordoado duplo e espirais filiformes aos pés e a ladear a cabeça de cada figura. São também de entrançado os limites, superior e inferior do bracelete, ponteados em intervalos regulares por argolas (em número de três) das quais, à semelhança das argolas do centro de cada espiral, penderiam guizos, hoje perdidos.
O aspecto filiforme da representação, do entrançado e das espirais, advém do processo de fabrico, que consiste na modelação com rolinhos de cera de espessura regular, resultando num positivo integralmente em cera, trabalhado depois com estilete, e do qual era tirado o molde em gesso ou negativo, para dar origem ao positivo em metal fundido. Tal como se observa noutros exemplares remanescentes, as operações posteriores à fundição resumiram-se à eliminação dos canais de alimentação (ou de entrada do metal em estado líquido) e de respiro e saída do ar, subsistindo intactos todos os excessos de metal junto aos motivos vazados.
A par das fiadas e colares rígidos, adereços de cabeça e vestuário - integralmente feito com malha reticulada de contas de coral vermelho, conhecidas por ivie ebo ou “contas europeias”, uma vez que o Coralium rubrum do Mediterrâneo foi introduzido no reino do Benim pelos mercadores portugueses; elas traduziam pela cor, o sangue e o perigo, mas eram principalmente símbolo de poder e sinal de riqueza, pelo seu valor - tecidos ricos, ornamentos em latão usados à cintura e demais regalia, o oba (ou rei) e outros chefes do Benim, usavam (e ainda usam) nas solenidades palacianas, pares de braceletes longos e de forma cilíndrica, colocados nos pulsos e usados durante a dança ritual, com espada cerimonial (eben), por forma a impedir que as contas se emaranhassem enquanto o rei brandia a espada.
Feitas sempre de marfim entalhado - de uso exclusivo reservado ao rei, à excepção dos reinados politicamente mais brandos -, a par de braceletes ebúrneos do oba correspondia semelhante par feito em latão, quer fundido quer martelado, usado pelos nobres da corte para arremessar repetidamente o eben durante o festival anual de Igue - celebrado em Dezembro - e em que se comemorava a renovação dos poderes mágicos do oba Ewuare (r. 1440-1473) ou, segundo outras tradições, o matrimónio do oba Ewuare com Ewere.
Estes braceletes de latão, uma liga de cobre e zinco - erradamente identificado como bronze (liga de cobre e estanho), à semelhança das placas que adornavam o palácio do oba -, eram encomendados à corporação dos fundidores ou Igun Eronmwon.
Existem no British Museum, em Londres, alguns exemplares produzidos por fundição em cera perdida - à semelhança do nosso exemplar -, embora com decoração exclusivamente de carácter geométrico, sendo dois de decoração em bandas, com reticulado vazado alternando com friso de espirais (inv. no. Af1920,1106.12 e Af1947,18.50), ambos muito semelhantes ao presente no encordoado do bordo superior e inferior, e com argolas para suspensão de guizos; um terceiro, igualmente em bandas, com reticulado intercalado com entrançado largo de seis fios (inv. no. Af1954,23.360); e um outro, dividido em cinco registos horizontais com entrançados complexos de três fios. Combinando o reticulado vazado com figuras de portugueses, embora claramente de produção descuidada e onde a representação dos portugueses é já plenamente icónica e abstracta, refira-se um bracelete já oitocentista outrora da colecção Perls, e hoje no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque (inv. no. 1991.17.150).

Hugo Miguel Crespo

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A rare and important cast brass armlet, most probably made in the city of Edo (now Benin City in Nigeria) in the 17th century, possibly as one of a pair intended for a high official or ruler of the Kingdom of Benin.

Cast by the lost-wax technique, the armlet features a pattern whose outstanding motif is the iconic depiction of a Portuguese figure, probably a 16th century officer or soldier, wearing doublet and jerkin of prominent buttons, short hoses and a round hat, his hands raised to the hips and what appears to be a sword in the right hand.

Often adopted for decorating this type of ceremonial objects, depictions of Portuguese figures were imbued with symbolic meaning since foreigners, arriving from the seas, were perceived as links to the sea God Olokun (symbolized by the colour white). As such they were interpreted as protective, almost magical and talismanic figures associated with the great 16th century warrior-king, the oba Esigie (r. 1504-1547), who had Portuguese support in the war against the ata, or king, of Idah, a kingdom that he would conquer and incorporate into his own.

Portrayed with aquiline noses and prominent almond-shaped eyes, as they invariably are in this context, the Portuguese figures alternate standing up and up-side-down, as if creating a pattern, on an openwork ground of double braids and thread-like spirals set near the feet and head of each figure. The armlet’s edges, defined by running braids, are dotted at regular intervals by sequences of three loops from which bells would be suspended. The same decorative detail is also missing from the spiral’s centres.
The figure’s thread-like character, the braids and the spirals, relate to a manufacturing process that consists in modelling wax threads of even thickness, which are then incised with a stylus, creating the positive template to be moulded in plaster - the negative that becomes the mould from which the metal object will be cast.
As seen from other extant examples, additional manufacturing steps were limited to polishing of casting sprues and air vents, with all excesses remaining intact alongside the openwork motifs.

At court ceremonial occasions, and up to this day, alongside strands and rigid necklaces, headdresses and garments made entirely of a mesh woven with Mediterranean red coral (Coralium rubrum) beads – known as ivie ebo or "European beads", symbols of power, blood, danger and immense wealth introduced to Benin by Portuguese merchants -, rich fabrics, brass hip ornaments and other regalia, the oba, or king, as well as other Benin chieftains, still wear pairs of long cylindrical armlets on performing ritual ceremonial sword (eben) dances, so as to keep the beads from getting entangled while brandishing the sword.
Carved ivory armlets, produced for exclusive use by the king, except during politically weaker reigns, were matched by a cast or hammered brass pair, to be worn by the court elites for throwing the eben ceremonial sword during the annual December Iga festival. This annual festival celebrated the renewal of the oba Ewuare (r. 1440-1473) magical powers or, according to other traditions, his marriage to Ewere.
These brass armlets, a copper and zinc alloy - mistakenly identified as bronze (an alloy of copper and tin), not unlike the plaques which once adorned the palace of the oba -, were commissioned to the Igun Eronmwon or bronze casters guild.
Some other extant lost-wax cast armlets survive in the British Museum collection, albeit of simpler geometric decorative motifs, such as two of banded openwork lattice decoration alternating with spiral friezes (inv. no. Af1920,1106.12 and Af1947,18.50), both similar to the present example in their braided rims set with suspension loops for bells. One other similarly decorated with bands of openwork lattice alternating with wide six-threaded braids (inv. no. Af1954,23.360), or yet a fourth of five complex design bands of three-threaded braids.
Combining the openwork lattice with Portuguese figures, although careless in their depiction, which is mostly iconic and abstract, mention should be made of an armlet, albeit dated to the nineteenth-century, from the Perls collection, today in the Metropolitan Museum of Art, New York (inv. no. 1991.17.150).

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