Arca-escritório

Nº de referência da peça: 
F1240

Madeira lacada, ouro e ferro dourado
Reino do Pegu (Birmânia, actual Myanmar), séc. XVI (meados)
Dim.: 17,0 x 44,5 x 34,0 cm
Proveniência: Colecção dos condes de Castro e Solla

Writing chest
Lacquered and gilded wood, and wrought iron fittings
Kingdom of Pegu (Burma, present-day Myanmar), mid-16th century
Dim.: 17,0 x 44.5 x 34,0 cm
Provenance: Counts of Castro e Solla collection, Abrantes

A rare and important writing chest probably made from anjili wood (Artocarpus sp.), coated with Southeast Asian black lacquer, or thitsi, and leaf gilded on the exterior faces and on the inside of the lid, while the internal sides are coated with cinnabar-red lacquer. With a top lid, long exterior drawer on the lower section with its puller, this writing box has two central divisions forming five nooks.
The wrought iron escutcheon, not unlike the rest of the fittings, is shaped like an heraldic shield; the drawer puller is scissor-shaped, and the double loop side handles follow the typical shape found on this type of furniture produced in sixteenth-century Europe.
Every exterior face except for the underside is decorated in low-relief highlighted with gold, featuring a stylised lotus scroll pattern (a motif, called baoxiang-hua, taken from Chinese blue-and-white porcelain) and flat borders decorated with foliage in gold leaf over the black lacquered ground, a technique typical of Burmese and Thai lacquerware (called shweizawa and lai rod nam, respectively).
The inner side of the lid is decorated with a low-relief carved composition in black lacquer and gold leaf, bordered on the sides by vegetal friezes, featuring a large double-sided eagle, possibly reminiscent of the Augustinians heraldry.
Nevertheless, the most extraordinary aspect of this writing chest lies in the carved and lacquered decoration of the exterior side of the lid, where, occupying the centre of the composition and surrounded by scrolls of lotus flowers, we see a Portuguese character dressed in the typical sixteenth-century attire of a countryman (shirt, jerkin, gown, stockings and boots, and a knitted hat) carrying a wicker basket in his left arm and holding in the same hand a staff with a hanging hare and partridge, certainly hunted in the fields. Over the figure (to which it points with the right hand), as a caption, inside a label one may read the inscription in Portuguese: “DAVA.LHO. VEMTO. NO C[H]APEIRAO. Q[U]ER. LHE. DE. Q[UE]R. NAO” or “The wind blew off his big chapeau, whether it did or no”. It is, as Vítor Serrão has already pointed out, the first verses of an adage by Luís de Camões (ca. 1524-1580), from a letter apparently written in Ceuta in 1549 or 1550 and published in 1598 in the second edition of his Rimas. However, Camões was only the author of the adage of which the refrain is the rustic verses in question, which, according to the same author, conveys the idea of bravery and intrepidity, and adventurous spirit as touted by the political elite in Portuguese Asia, and certainly a conscious choice of the Portuguese patron and client who wanted to include such a rustic motto in the decoration of the present writing chest, which for that reason is a very rare and important historical-artistic document of the Portuguese presence in Asia.
Alongside better-known Japanese lacquerware made for export and known as Namban, a Japanese word of Chinese origin which was used to characterize the first Europeans to reach Japan in the sixteenth and seventeenth centuries, other export lacquered furniture productions made for the Portuguese market exist.
These so-called Luso-Asian lacquers, which have resisted consensual identification of its place of production, are somewhat heterogeneous in character and may be divided into two groups.
Bernardo Ferrão was one of the first authors to take an interest in this type of production, and identified several extant examples in public and private collections which are almost exclusively Portuguese. As characteristics of this production, which he wrongly identifies as Indo-Portuguese, the author mentions: “the style and decoration, the lacquer coating and in some examples, the presence of coats of arms, inscriptions in Portuguese, figures and mythological scenes, from classical and Christian European culture, carved or painted, all following the canons of Renaissance art”.
The first group, to which the rare and important writing chest belongs, has been recently identified as Burmese in origin, thus made in the Kingdom of Pegu, in the south of present-day Myanmar, given strong archival and material evidence (Burmese lacquer or thitsi, from the sap of the Melanorrhoea usitata used in Southeast Asia) and the lacquer techniques used (the Burmese shwei-zawa) in their production, as evident from recent scientific analyses and art-historical research.

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Rara e muito importante arca-escritório, provavelmente em madeira de angelim (Artocarpus spp.) revestida a laca negra do Sudeste Asiático ou thitsi e folha de ouro nas faces exteriores e interior da tampa, sendo as faces do compartimento lacadas a vermelho cinábrio. De tampa de levantar e gaveta inferior com puxador, no interior apresenta divisórias que se cruzam formando cinco escaninhos.
O escudete da fechadura é em ferro forjado, tal como as restantes ferragens e tem a forma de escudo heráldico; o puxador da gaveta é em “tesoura” e as asas das ilhargas em dupla ansa, seguindo as formas específicas deste tipo de mobiliário europeu quinhentista.
Todas as faces exteriores estão integralmente decoradas, com o campo entalhado em baixo-relevo avivado a ouro, com um padrão espiralado de flores-de-lótus estilizadas (motivo típico da porcelana chinesa azul-e-branca, conhecido por baoxiang-hua) e folhagens, em folha de ouro sobre o fundo negro da laca, técnica típica das lacas birmanesas e tailandesas (shwei-zawa e lai rod nam, respectivamente).
O interior da tampa é decorado com uma composição entalhada em baixo relevo, revestida a laca negra e folha de ouro, emoldurada lateralmente por tarjas fitomórficas, figurando uma grande águia bicéfala, reminiscente talvez da heráldica dos Agostinhos.
No entanto, o aspecto mais extraordinário desta arca-escritório é a decoração entalhada e lacada face exterior da tampa, onde, ocupando o centro da composição e rodeada por enrolamentos de flores-de-lótus, vemos a figura de um português, com a indumentária típica quinhentista de um homem do campo (camisa, colete, saio, meias e botas de cano alto revirado e gorro de malha) levando pelo braço esquerdo uma cesta de vime e na mão um bastão com uma lebre e perdiz penduradas, certamente produto da caça. Sobre a figura (que para ela aponta com a mão direita), a modo de legenda, dentro de um rótulo ou filactera lê-se a inscrição em português: “DAVA.LHO. VEMTO. NO C[H]APEIRAO. Q[U]ER. LHE. DE. Q[UE]R. NAO”. Trata-se, como já publicou Vítor Serrão, dos primeiros versos de um adágio de Luís de Camões (ca. 1524-1580), de carta aparentemente escrita em Ceuta em 1549 ou 1550 e publicada em 1598 na segunda edição das suas Rimas. No entanto, Camões foi apenas autor do adágio do qual o refrão é o mote rústico em questão, que, segundo o mesmo autor, expressa uma ideia de bravura e intrepidez, de espírito aventureiro tal como alardeado pela elite política na Ásia Portuguesa.
A escolha desta decoração foi certamente uma escolha consciente do encomendante português que quis incluir tal mote rústico na decoração da presente arca-escritório, tratando-se assim de um raríssimo e importante documento histórico-artístico da presença lusa na Ásia.
A par das conhecidas lacas japonesas produzidas para exportação e conhecidas por Namban, termo japonês de origem chinesa que se refere aos primeiros europeus que chegaram ao Japão nos séculos XVI e XVII, outras produções existem de mobiliário lacado para exportação para o mercado português. Estas, ditas luso-asiáticas, que têm resistido à identificação consensual quanto ao seu local de produção, são um tanto heterogêneas nos seus caracteres identificadores, podendo ser divididas em dois grupos. Bernardo Ferrão foi um dos primeiros autores a interessar-se pelo tema, tendo identificado vários exemplares em colecções públicas e privadas, quase exclusivamente portuguesas. Como características identificadoras, que Ferrão caracteriza erradamente de indo-portuguesa, este autor refere: "o estilo e trabalho da decoração, o lacado e, em algumas, a existência de brasões, legendas em português, figuras e cenas mitológicas, cristãs e da cultura europeia clássica, entalhadas ou pintadas, tudo obedecendo a cânones renascentistas". O primeiro grupo, ao qual esta importante e rara arca-escritório pertence, foi recentemente identificado como sendo de origem birmanesa, produzido no reino do Pegu, no sul do actual Myanmar, dada a forte evidência arquivística e bem assim material (birmanesa ou thitsi, da seiva da Melanorrhoea usitata usada no Sudeste Asiático) e técnicas de fabrico (técnica birmanesa shwei-zawa) usadas na sua produção, tal como evidente por análises científicas e investigação histórico-artística recentes.

Hugo Miguel Crespo

  • Arte Colonial e Oriental
  • Artes Decorativas
  • Lacas

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