Arca-escritório

Nº de referência da peça: 
F1186

Teca, madrepérola, tartaruga, mastique, e latão; ferragens de ferro
Guzarate, Índia, séc. XVI (2a metade)
Dim.: 11,4 x 24,5 x 17,8 cm

Writing chest
Teak, mother-of-pearl, tortoiseshell, mastic, and brass; iron fittings
Gujarat, India, 2nd half of the 16th century
Dim.: 11.4 x 24.5 x 17.8 cm

Uma muito rara e importante arca-escritório, de pequenas dimensões, do Guzarate com tampa plana avançada. Assente em quatro pés, e de estrutura em teca (Tectona grandis), apresenta gaveta frontal e escaninho no interior à esquerda com sua tampa articulada, usado par conter instrumentos de escrita, enquanto a gaveta serviria para guardar documentos e papel. As ferragens em ferro forjado incluem um escudete quadrado com sua lingueta em “T” articulada, ladeado por duas colunas, as rosetas na tampa fixando a lingueta, o puxador da gaveta, duas cantoneiras em “L” reforçando a frente e as ilhargas, e as gualdras laterais, todas copiando as típicas ferragens em ferro forjado usadas em peças de mobiliário na Europa dos finais do século XV e inícios do XVI.

Todas as faces exteriores, com excepção do tardoz e do fundo que foram pintadas a goma-laca vermelha (apenas vestígios no fundo), estão cobertas de tesselas de madrepérola, provavelmente da ostra perlífera que, dada a coloração dourada nalgumas delas indica tratar-se de ostras de Pinctada maxima, combinadas com tesselas do gastrópode marinho Turbo marmoratus, todas fixas com pinos de latão. A decoração ornamentação em mosaico é não apenas inusual mas também notável quanto ao esquema de decorativo e de cor decorativo, no contraste entre a coloração branca da madrepérola de ostra perlífera, os tons escuros da tartaruga - provavelmente da tartaruga-de-escamas (Eretmochelys imbricata) - e os vibrantes embutidos laranja-avermelhado em mastique misturado com pigmento.

A decoração em tapete consiste em simples molduras de madrepérola entrecortadas por losangos alternando entre o mastique vermelho e a tartaruga, com um padrão central de escama de peixe nas ilhargas e topo, apresentando por seu turno a tampa um medalhão redondo com uma roseta de estilo timúrida, que consiste numa flor de lótus estilizada sobre o fundo de tartaruga. A frente, dada a presença da gaveta, é decorada por semelhantes molduras rectangulares, com o fundo preenchido por duas tarjas rectangulares de palmetas alternando com rosetas sobre o fundo escuro da tartaruga e os embutidos de mastique laranja-avermelhado.

A origem indiana desta produção em madrepérola, de Cambaia (Khambhat) e Surate no actual estado do Guzarate na Índia ocidental, ficou plenamente demonstrada nas últimas três décadas, não apenas através da evidência documental e literária, mas também pela sobrevivência in situ de estruturas quinhentistas em madeira cobertas de tesselas de madrepérola . Um exemplo extraordinário é o baldaquino que decora o túmulo do santo sufi Salim Chisti (1478-1572) em Fatehpur Sikri perto de Ara no estado de Uttar Pradesh, Índia. Trata-se de uma produção artística de cariz geométrico e de alguma forma islâmica, onde as tesselas de madrepérola são justapostas formando complexos padrões de escamas ou flores-de-lótus-estilizadas . Produzidas para exportação para a Europa sob encomenda lusa, os primeiros exemplares que fazem uso desta forma de trabalhar a madrepérola chegaram a Lisboa com destino à casa real e às colecções principescas da época, tal como fica claro dos nos inventários sobreviventes. As primeiras peças documentadas surgem no inventário post mortem de D. Manuel I (r. 1495-1521) de 1522 referente à sua guarda-roupa .

Enquanto são conhecidos cofres de diferentes formas, que fazem uso da técnica de madrepérola do Guzarate, tanto com tampas tronco-piramidais (topo plano e lados inclinados) segundo modelo local islâmico (com origem remota nas caixas do Extremo Oriente usadas para conter os textos budistas), ou tampas prismáticas de três lados copiando protótipos europeus, ou mesmo tampas ligeiramente abauladas também de origem europeia, nenhuma outra arca-escritório desta produção é-nos conhecida.

No entanto, o protótipo medieval tardio usado como modelo para a presente arca-escritório é bem conhecido, sendo usado na produção das primeiras peças de mobiliário asiático feitas para exportação para a Europa. Estes incluem arcas-escritório de pequena e média dimensão revestidas a laca, de meados do século XVI e apresentando igualmente m gavetas e escaninhos interiores, produzidas no Reino do Pegu (actual Mianmar) especificamente para o mercado português, e grandes arcas de carregação ou viagem produzidos na Cochim portuguesa (Kochi, no estado do Kerala) a partir do século XVI .

Para além da sua raridade, o aspecto mais importante da presente arca-escritório reside na decoração pintada, rica e bem preservada, no interior da tampa, no fundo interior e no fundo interior da gaveta. O interior da tampa é decorado com um príncipe a cavalo com dois oficiais, o da frente empunhando um abano e o segundo, atrás do seu senhor, carregando um para-sol; ambos emblemas que denotam a realeza e, assim, sugerem o carácter régio ou principesco do cavaleiro. Todas as três figuras estão vestidas com o traje cortesão dos sultanatos do Decão: túnicas, à altura do joelho presas do lado, calças apertadas e turbante. Melhor adaptada ao espaço mais íntimo do fundo interior, a pintura retrata uma cena de amor cortês, com um homem e uma mulher sentados num tapete conversando, o homem vestido de semelhante forma, e a mulher usando um sari e um muito apertado corpinho ou cholee, enfatizando os seus seios, destacando assim a natureza amorosa e sensual da representação. O fundo da gaveta é decorado com uma cena de caça principesca, com o príncipe a cavalo com um arco e flecha apontando para um chital em fuga (Axis axis), cercado por outros cervos e grandes lebres.

Espessamente delineado, embora de forma graciosa, com todas as figuras a três quartos e o fundo salpicado de flores estilizadas derivadas da pintura persa, o estilo das representações é reminiscente da pintura indiana sobre papel tal como praticada em oficinas menos sofisticadas do sultanato do Guzarate. As nossas pinturas decorativas partilham muitas semelhanças, por exemplo, com o conhecido álbum indo-português, o Codex Casanatense 1889 - um livro de “trajes e costumes” dos diferentes povos asiáticos encontrados pelos portugueses -, que foi recentemente atribuído a um artista treinado numa oficina de um dos sultanatos indianos no início do século XVI, possivelmente, Mandu (Malwa) ou Guzarate, e datado da década de 1540 .

Para além disso, a decoração das poucas bacias de madrepérola sobreviventes usando a mesma técnica de produção do Guzarate tal como a presente arca-escritório, ou seja, aquelas que apresentam uma estrutura de madeira, e que ingressaram nas colecções principescas (onde ainda hoje se encontram), ainda durante o século XVI, assemelham-se na técnica, materiais e iconografia àqueles usados na presente, e única, arca-escritório. Enquanto um exemplar destas bacias apresenta apenas medalhões de estilo timúrida e decoração de arabescos no fundo exterior (Kunst und Wunderkammer Burg Trausnitz, Landshut, inv. R 1265), a outra (Grünes Gewölbe, Dresden, inv. IV 181), com preciosas montagens de prata dourada adicionadas em ca. 1582-1589, apresenta animais pintados, nomeadamente lebres e veados, surpreendentemente semelhantes aos que encontramos na nossa arca-escritório .

Hugo Miguel Crespo

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An extremely rare, and highly important Gujarati small writing chest with a flat projecting lid. Raised on four bracket-shaped feet, and made from teak (Tectona grandis), it features a front drawer, and is fitted inside, on the left, with a small compartment or nook, set with a hinged lid, used to store writing implements, while the front drawer would have been used for storing documents and paper. The wrought iron fittings include a square shaped escutcheon with its T-shaped hinged latch, with a column on either side, the rosettes on the lid securing the latch, the drawer puller, two L-shaped brackets securing the front and side, and side handles, all follow the typical wrought iron fittings used on pieces of furniture produced in late fifteenth and early sixteenth-century Europe.
Every exterior face, except for the back and the underside which are painted with red shellac (on the underside only traces remain), is covered with mother-of-pearl tesserae, made most probably from pearl oyster shells, and, given the golden sheen seen on some of the tesserae, is likely to be from Pinctada maxima oysters and also from the marine gastropod Turbo marmoratus, all pinned with brass. The mosaic decoration is both unusual and striking in its decorative and colour scheme, with the contrast between the whitish colour of the mother-of-pearl from pearl oyster, the dark tones of the tortoiseshell - probably from the hawksbill sea turtle (Eretmochelys imbricata) - and the vibrant orange-red inlays, made from mastic mixed with pigment. The carpet-like decoration consists of simple rectangular frames of mother-of-pearl dotted with alternating red mastic and tortoiseshell lozenges, and a central fish scale pattern on the sides and the top, the lid featuring a round medallion with a Timurid-style rosette, which is a stylized lotus flower, over a tortoiseshell ground. The front, on the account of the drawer, is decorated with similar rectangular frames, while the field features two rectangular bands of stylised palmettos and rosettes over alternating dark tortoiseshell and red-orange mastic inlays.
The Indian origin of this mother-of-pearl production, namely from Khambhat and Surat in present-day state of Gujarat in western India, has been fully demonstrated during the last three decades, not only by documentary and literary evidence but also by the survival in situ of sixteenth-century wooden structures covered in mother-of-pearl tesserae. A fine example is the canopy decorating the tomb of the Sufi saint, Sheik Salim Chisti (1478-1572) in Fatehpur Sikri near to Agra in the state of Uttar Pradesh, India. This is an elaborate artistic production, geometric in character and Islamic in nature, where the mother-of-pearl tesserae are employed to form complex designs of fish scales or stylised lotus flowers. Made to Portuguese order for export to Europe, the first items made using this type of mother-of-pearl technique to arrive in Lisbon were destined for the royal court and the princely collections of the time, as is recorded in surviving inventories. The first documented pieces are to be found in the 1522 post-mortem inventory of the guarda-roupa of Manuel I of Portugal (r. 1495-1521).
While caskets of many different shapes, that have been made using mother-of-pearl technique from Gujarat are known, either featuring truncated pyramidal lids (with slopes on each side and a flat top) following local Islamic prototypes (their remote origins in Far Eastern boxes containing Buddhist texts), or prismatic lids with three sides copying European prototypes, or even slightly domed-shaped lids also of European origin, no other writing chest of this production is known. Nevertheless, the late medieval prototype used as a model for the present writing chest is very well-known, as it was used in the production of the earliest pieces of Asian furniture made for export to Europe. These include mid-sixteenth century lacquer coated small and medium-sized writing chest similarly fitted with drawers and inside nooks made in the Kingdom of Pegu (present-day Myanmar) specifically for the Portuguese market, and large storage chests or travelling trunks made in Portuguese-ruled Cochin (Kochi, in the state of Kerala) from the sixteenth century onwards.
In addition to its rarity, the most important aspect of the present writing chest is in the rich, well-preserved painted decoration on the inside of the lid, the floor of the interior well, and the floor of the drawer. The inside of the lid is decorated with a prince or ruler on horseback with two attendants, the one in front wielding a fan and the second, behind his master, carrying an umbrella; both emblems denoting royalty and thus suggesting the royal or princely character of the horseman. All three figures are dressed in the courtly attire of the Deccani sultanates: knee-length tunics fastened at the side and tight-fitting trousers and turban. Adapted to the more intimate space of the well, the painting on its floor depicts a courtly love scene, with a man and a woman sitting on a carpet engaged in conversation, the man similarly attired, and the woman wearing a sari and a very tight-fitting bodice or cholee, emphasising her breasts, thereby highlighting the amorous, sensual nature of the depiction. The floor of the drawer is decorated with a princely hunting scene, with the prince on horseback with a bow and arrow aiming at a fleeing chital (Axis axis), surrounded by other deer and large hares.
Heavily outlined, albeit gracefully, with all the figures in three-quarter profile and the background sprinkled with stylised flowers derived from Persian painting, the style of the depictions is reminiscent of Indian painting on paper as practised in less sophisticated courtly workshops in the Sultanate of Gujarat. Our decorative paintings share many similarities, for instance, with the well-known Indo-Portuguese album Codex Casanatense 1889 - a “costume and customs” book on the different Asian peoples encountered by the Portuguese -, which has recently been attributed to an artist trained in a Sultanate studio in the early sixteenth century, possibly in Mandu (Malwa) or Gujarat, and dated to the 1540s.
Furthermore, the decoration of the few surviving mother-of-pearl basins using the same type of Gujarati production technique as the present chest, namely those featuring a wooden core and which entered their princely collections during the sixteenth century, matches in technique, materials and iconography those used in our unique writing chest. While one example features only Timurid-style medallions and arabesque decoration on its underside (Kunst- und Wunderkammer Burg Trausnitz, Landshut, inv. R 1265), the other known basin (Grünes Gewölbe, Dresden, inv. IV 181), which had precious silver gilt mountings added to it ca. 1582-1589, features painted animals, namely hares and deer, strikingly similar to the ones depicted on our chest.

  • Arte Colonial e Oriental
  • Artes Decorativas
  • Marfim, Tartaruga e Madrepérola

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