Ventó

F952  Móvel portátil Indo-português, paralelepipédico, em teca com embutidos em ébano e marfim, produção de Goa de meados do século XVII. A caixa é compacta, com porta lateral e assenta em quatro pés de ébano em bolacha. Apresenta uma pega em cobre dourado no topo. A decoração invade todo o móvel, tirando partido do efeito claro/escuro das madeiras utilizadas, com os embutidos de ébano sobre o fundo claro da teca. Os elementos decorativos assumem, claramente, opção pela simetria e são pontuados por pequenas cavilhas de marfim, funcionais mas também decorativas, que salpicam as superfícies de pontos brancos.

As faces apresentam o mesmo padrão decorativo, dito em tapete de medalhão central, isto é, com um centro definidor de todo o desenho e cercaduras periféricas em ébano. O elemento fulcral é uma cabeça de leão com olhos de marfim, ornamento típico da decoração goesa, envolvida por elementos fitomórficos, enrolamentos de folhagens estilizadas, colocados de forma regular e simétrica. Estão limitadas perifericamente por dupla moldura em ébano, com cantoneiras rendilhadas em cobre dourado.

A porta, com o mesmo padrão decorativo, quer no exterior, quer no interior, é articulada por duas ferragens em cobre ricamente vazado e dourado a azouge, e ostenta um exuberante espelho envolvendo a fechadura, profusamente trabalhado. Encerra uma composição assimétrica de gavetas: à direita duas iguais sobrepostas, a par de uma única, quadrangular com a mesma volumetria, ambas encimadas por gavetão que ocupa toda a largura do móvel. Estas são ornamentadas com motivos fitomórficos de ébano, pontuado por cavilhas de marfim, sobre madeira de teca, com moldura dupla de ébano. Escudetes e puxadores em metal recortado, rendilhado e dourado, extremamente fino. O contraste claro – escuro, sombra- luz, valoriza significativamente o móvel, do ponto de vista estético, dando-lhe um aspeto luxuriante e uma acentuada noção de volume.

O cariz vegetalista, com caules e folhas que se enrolam, e desenvolvem curvas elegantes, gerando novos e idênticos elementos, resulta da miscigenação entre as linguagens decorativas, hindu e islâmica. Esta fórmula artística originava um modelo característico de fabrico goês, que foi persistindo durante o seculo XVI e XVII. O ventó não tem equivalente europeu. A sua origem remonta à Asia Oriental, China e Japão, ao qual davam o nome de bentó, bentô, vento, ventô, e que os portugueses trouxeram para terras mais a Ocidente, onde foi perfilhado às modas europeias. Estes cofres ou escritórios de jóias eram, normalmente colocados sobre as mesas.

Teca, ébano e marfim e cobre dourado Indo-português, séc. XVII Dim.: 25,0 x 25,0 x 31,0 cm Teakwood, ebony, ivory and gilded copper Indo-Portuguese , 17th c. Dim.: 25,0 x 25,0 x 31,0 cm FERRÃO, Bernardo, Mobiliário Português, Vol. 3, Porto, Lello & Irmão Editores, 1990, pp. 268 a 276. — CAGIGAL e SILVA, Maria Madalena, A Arte Indo-Portuguesa, Lisboa, Edições Excelsior, 1966, p. 61, fig. 34. — PINTO, Maria Helena Mendes, “Mobiliário e Marfins”, in Os Descobrimentos Portugueses e a Europa do Renascimento (cat.), Lisboa, XVII Exposição Europeia de Arte, Ciência e Cultura, INCM, 1983, p. 181. — DIAS, Pedro, Mobiliário Indo-Português, Moreira de Cónegos, Imaginalis, 2013.

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