Taça

F663  Esta pequena taça em ágata matizada e de tons fumados tem como característica principal o facto de ser monolítica, ou seja, corpo e pé foram lavrados de um único bloco de mineral e permanecem contínuos. As ágatas são uma das muitas formas da calcedónia, um tipo de quartzo onde se incluem também as cornalinas e os heliotrópios. A identificação da origem geográfica deste tipo de peças – trabalhadas a partir de um bloco de mineral e sem decoração – apresenta normalmente grandes dificuldades. No entanto, a variedade de mineral usado e a sua forma sugerem que a taça deverá ter origem no Guzarate, província do noroeste da Índia. De acordo com os diários dos muitos viajantes e comerciantes que visitaram o Guzarate nos séculos XVI e XVII, era dali que provinham objectos utilitários mas também outros com maior intervenção artística realizados em calcedónias várias. Entre estes contam-se taças, cabos adagas e espadas, sinetes, anéis, etc.1. Das raríssimas peças datadas que chegaram até nós destaca-se uma pequena taça semi-hemisférica também em ágata inscrita com versículos do Corão e data correspondente a 1606, presentemente na Khalili Collection, Londres2. Uma segunda taça também em ágata matizada e atribuída ao segundo quartel do século XVII encontra‑se no Los Angeles County Museum of Art3. A pronunciada copa desta taça assenta num pequeno pé reproduzindo a base de um cone truncado. O bordo apresenta-se com lábio curvado para o exterior e direito, e com menor espessura do que as paredes. Embora tanto a copa como o pé sejam mais pronunciados, estes aproximam-se das formas do cálice em jade do imperador mogol Jahangir (r. 1605–27) nas colecções do Brooklyn Museum e com data inscrita correspondente a 1607–084. Uma segunda taça, na al-Sabah Collection, Kuwait, em cristal de rocha mas enriquecida com ouro e pedras preciosas apresenta também forma semelhante5. Foram vários os imperadores mogóis que se fizeram retratar com pequenas taças nas mãos mas infelizmente e devido às reduzidíssimas dimensões dos objectos reproduzidos é difícil ter a certeza das formas destas, e daí retirar quaisquer conclusões. A taça foi enriquecida com dois aros em filigrana e granulado em ouro. O motivo decorativo usado, uma sucessão de ondas vistas de perfil, é algo incomum na Índia mogol ou mesmo em outras regiões ao sul da Índia. O chamado “enrolamento de Vitrúvio” faz parte do repertório da arquitectura da Roma Antiga e apresenta-se aqui a decorar a borda do pé e a zona imediatamente anterior ao lábio da taça. Uma ligeira reentrância nesta última zona indica que a taça foi idealizada para ser decorada com montagens. No entanto, o motivo escolhido assim como o facto de o aro superior impedir o seu uso – pelo menos de uma forma confortável – indicam que as montagens serão posteriores, datando possivelmente do séc. XIX.

Ágata e ouro Provavelmente Guzarate, séc. XVII Alt.: 5,8 cm Diâm.: 7,5 cm An Agate Cup Agate and gold Probably Gujarat, 17th c. Height: 5,8 cm CARVALHO, Pedro Moura; (com ensaios de S. Vernoit e H. Sharp), Gems and Jewels of Mughal India, The Nasser D. Khalili Collection of Islamic Art, vol. XVIII, Londres, 2010, p. 50. ² Idem., p. 85, cat. 30. ³ PAL, P., LEOSHKO, J., DYE III, J. M. e MARKEL, S., Romance of the Taj Mahal, Catálogo de exposição (Los Angeles County Museum of Art), Los Angeles e Londres, 1989, pp. 152 - 3, cat. 162. 4 Datado e com data correspondente a 1607 - 8. Illustrado em SKELTON, R., [et al.], The Indian Heritage. Court Life and Arts under Mughal Rule, Catálogo de exposição, Londres (Victoria and Albert Museum), 1982, p. 117, cat. 350. 5 KEENE, M. com KAOUKJI, S., Treasury of the World. Jewelled Arts of India in the Age of the Mughals: The al-Sabah Collection, Kuwait National Museum, Catálogo de exposição (British Museum, etc.), Nova Iorque, 1997, p. 33, cat. 2.7. Diam.: 7,5 cm

  • Arte Colonial e Oriental
  • Artes Decorativas
  • Adagas e Polvorinhos

Formulário de contacto - Peças