Escritório

F1023  Teca, sissó e marfim (tingido e cor natural) Arqueta-escritório de tampo de levantar de caixa paralelepipédica, assente em pés de bola achatada, com estrutura de teca e faces exteriores em sissó decorado a embutidos de teca, sissó e marfim à cor natural e tingido de verde, e ferragens e pregaria em cobre vazado e dourado. O tampo de levantar dá acesso a um compartimento central rodeado na frente e nas laterais por três escaninhos (para os instrumentos de escrita), com um tinteiro e uma poeira em sissó ladeando cada um o escaninho da frente. A presente arqueta apresenta ainda uma gaveta na metade inferior, com sua fechadura e pegas, mimetizadas na metade superior, que simula outra gaveta, cuja fechadura dá acesso ao interior. A decoração das faces exteriores, em tapete, consiste num campo preenchido por plantas floridas dispostas em simetria, com estreita cercadura decorada por quadrifólios que alternam entre sissó e marfim à cor natural. Mais complexa, a decoração da face exterior do tampo é igualmente em tapete, com um campo central onde pontua uma planta florida ladeada por dois pavões afrontados, uma larga e rica cercadura de plantas floridas dispostas em simetria, entrecortadas por cercaduras estreitas de quadrifólios que alternam entre sissó e marfim à cor natural. A face interior do tampo, difere apenas na cercadura larga (e na ausência dos pavões), aqui deixada sem decoração, enfatizando a singeleza decorativa dos veios do sissó. Esta arqueta-escritório de tampo de levantar pertence a um raro grupo de peças de mobiliário que se singulariza pela sua decoração de embutidos de cores contrastantes e, em particular, pelo característico friso de florões recortados de quatro pétalas que não se encontram no mais abundante mobiliário produzido seguramente em Goa (em teca com embutidos de ébano e marfim) numa produção de larga escala que conhecemos para toda a centúria de Seiscentos. Dada a natureza 'persa' da decoração floral típica desta produção de mobiliário rico marchetado, a totalidade dos autores que se têm ocupado destas peças e sua invulgar, mas coerente decoração, apontam para uma origem mogol e para uma produção centrada nos portos do Guzarate (e também no Sinde, mais a norte, no actual Paquistão), então sob domínio mogol (Dias 2013, pp. 126, 178–179, 299–301, 379, 390, 392, 404–405, 408). De acordo com recente investigação de Hugo Miguel Crespo é, no entanto, mais provável, que tais peças de mobiliário tenham sido produzidos nas Províncias do Norte do Estado Português da Índia, tanto no Guzarate como no Maharashtra, a norte de Goa (Crespo 2016, pp. 136–171, cat. n.º 15). E isto, não apenas porque a produção deste tipo de objectos para o mercado português — desde pelo menos meados de Quinhentos — data de antes da conquista mogol daqueles territórios em 1576, com a queda do Sultanato do Guzarate, mas também porque a natureza “persa” da decoração deve ser considerada tão típica da arte mogol como da arte sumptuosa e rica produzida nos Sultanatos do Decão, tais como o de Ahmadnagar e Bijapur,que então ocupavam toda a costa ocidental do subcontinente indiano desde o Guzarate até Goa. Na verdade, os Sultanatos do Decão resultaram politicamente da desagregação do Sultanato de Bahmani que, entre 1347 e 1518, foi um dos bastiões da cultura e arte persa no subcontinente indiano. Das diversas praças costeiras ocupadas pelos portugueses ao longo do século XVI, e que constituíram as Províncias do Norte, várias podiam reclamar já uma tradição de fabrico de mobiliário, referindo-se algumas das primeiras notícias documentais a mobiliário marchetado produzido na Índia para o mercado português precisamente à aldeia de Taná, hoje integrada na cidade de Bombaim (Mumbai). Com efeito, na listagem dos objectos embarcados em Goa na nau Garça em 1559, encontramos descrito huum espritorio nouo grande de pee marchetado feyto em Tanaa (Crespo 2014, pp. 71–72). ❧ Vd. — CRESPO,

Ferragens de cobre dourado. Províncias do Norte do Estado Português da Índia, provavelmente Taná, Bombaim (Mumbai) Final do séc. XVI início do séc. XVII Dim.: 21,5 × 36,0 × 44,5 cm Teak, indian rosewood and ivory (dyed and natural colour) Gilded copper fittings. Northern provinces of the Portuguese State of India, probably Thane, Bombay (Mumbai) Dim.: 21,5 × 36,0 × 44,5 cm — CRESPO, Hugo Miguel, Jóias da Carreira da Índia (cat.), Lisboa, Fundação Oriente, 2014. — CRESPO, Hugo Miguel, Choices (cat.), Lisboa – Paris, AR-PAB, 2016. — DIAS, Pedro, Mobiliário Indo-Português, Moreira de Cónegos, Imaginalis, 2013.

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