Aquamanil Caquesseitão

Nº de referência da peça: 
B255

Objecto de prata de âmbito civil, usado para lavar as mãos no ritual que antecedia as refeições da aristocracia portuguesa, este extraordinário aquamanil, de grandes dimensões e peso, pertence a um grupo de cerca de oito peças dispersas pelo globo.

Finamente repuxados e cinzelados, construídos por duas espessas chapas de prata soldadas a meio, apresentam-nos uma estranha figuração quimérica que remete para os aquamanilia medievais em forma de animal fantástico, tem sido identificada com o animal descrito por Fernão Mendes Pinto na Peregrinação (1614), o caquesseitão: "do tamanho de h˜ua grande pata, muyto pretos,conchados pelas costas, com h˜ua ordem de espinhos pelo fio do lombo do comprimento de h˜ua penna de escreuer, & com azas de feição das do morcego, co pescoço de cobra, & h˜ua vnha a modo de esporaõ de gallo na testa, co rabo muyto comprido pintado de verde & preto, como saõ os lagartos desta terra".

Nem o animal corresponde exactamente à forma dos nossos aquamanis, nem se torna necessária tal associação, dado que o que está representado é tão-só um dragão tal como surge na arte europeia desde os finais do século XV.

Não estranha, portanto, que esta figuração se encontre em objectos de kunstkammer igualmente anteriores à Peregrinação, dada a natureza fantástica do animal representado. Destes, sobressaem vasi e tazze de extravagantes formas quiméricas, entalhadas em cristal de rocha nas oficinas de Milão ou Praga. Semelhante a estas peças de aparato, o nosso aquamanil apresenta corpo coberto por escamas, cabeça de dragão, cauda de serpente com terminal de peixe, patas de ave, asas de morcego cobertas de escamas e articuladas, pega móvel no dorso e pequeno pássaro na boca, por onde se verte a água.

Pequenas diferenças entre os exemplares conhecidos centram-se no posicionamento das asas, na presença ou ausência de espigões no focinho e testa do dragão, no terminal da cauda, e na modificação posterior que alguns destes sofreram, transformados em perfumadores.

Embora se trate da representação de um dragão igual a tantos outros na arte europeia, fica clara a filiação da cabeça à arte asiática. Com efeito a cabeça de dragão dos nossos aquamanis segue de perto a arcana figuração da cabeça do mítico dragão-crocodilo, ou makara, de origem remota indiana. As primeiras representações chinesas desta criatura fazem-na habitante dos oceanos, com boca e olhos enormes, dentes fortes, corpo longo coberto de escamas e cauda de peixe.

Curiosamente as diferenças apontadas entre os diversos aquamanis, como a presença de um espigão junto ao focinho, indicam que também aqui se verifica a distinção sexual entre os vários objectos, tal como acontece na sua representação enquanto makara na arte chinesa. Significa então que o presente aquamanil é uma das fêmeas.

Prata, Sul da China ou Sudeste Asiático

Séc. XVII – 1ª metade

Dim.: 44,0 × 47,0 × 21,5 cm
Peso: 4746,0 g

Silver, Southern China or Southeast Asia

17th c. – first half

Dim.: 44,0 × 47,0 × 21,5 cm
Weight: 4746,0 g

  • Arte Colonial e Oriental
  • Artes Decorativas
  • Pratas e Filigranas

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