Preâmbulo
Este livro não pretende ser um volume monográfico
sobre um tema tão complexo e pouco estudado, em especial
num campo em que grande parte da historiografia
da arte publicada revisita de forma repetida o mesmo pequeno
e bem conhecido corpus de arte cristã chinesa dos
inícios da época moderna. Espera-se que a análise aprofundada
das quinze obras discutidas na secção de catálogo
deste volume - na sua maioria inéditas e desconhecidas
dos estudiosos - contribua para um maior esclarecimento
do tema e forneça material para ulterior investigação e a
necessária análise comparativa. Ao alargar o âmbito geográfico
por forma a incluir o Mar do Sul da China - considerando,
por exemplo, o contributo dos artistas chineses
ultramarinos estabelecidos nas Filipinas - este estudo
sublinha o carácter essencialmente chinês das suas obras,
apesar de um maior ou menor processo de sinização e das
crescentes influências europeias que nelas se manifestam.
Mais se sublinha também as duas principais formas como
estas obras foram produzidas: uma centrada nas províncias
costeiras do sul da China, tendo como figuras principais
particulares e ricos mercadores; outra enraizada no coração
do Império, na sua capital, Beijing, acessível apenas a
missionários e diplomatas acreditados.
O presente volume deve a sua existência a uma pintura
outrora num palácio lisboeta e à insaciável curiosidade de
um antiquário. Esta pintura é, sem dúvida, uma das mais
significativas obras de arte cristã produzidas na China
durante o início do período moderno, criada no contexto
específico da actividade missionária na região, agora melhor
compreendido. Pertence hoje ao Asian Civilisations
Museum em Singapura. Pintada pelo irmão jesuíta italiano
Giuseppe Panzi em colaboração com um artista chinês
desconhecido (cat. 11), representa o altar-mor da Igreja
de S. José, o Dong Tang, em Beijing. Para além de ser um
raro exemplar de arte cristã realizada na China no auge da
presença jesuíta na corte imperial, encontra-se documentada
em fontes arquivísticas que chegaram até nós. Além
disso, contribui para um melhor entendimento da decoração
interior desta igreja em Beijing, há muito desaparecida.
O primeiro texto sobre esta notável pintura foi escrito
em 2019, mas circulou apenas sob a forma de um dépliant
impresso e ilustrado. De certo modo, esta pintura, junto
com outra sobre seda (cat. 12), identificada pouco depois -
representando S. António de Pádua (ou, como preferem os
portugueses, “de Lisboa”) -, foi o motor desta publicação.
Estas e outras raras obras religiosas produzidas na
China ou por artistas chineses durante o início do período
moderno constituem o cerne deste volume. Embora estas
pinturas tenham servido de ponto de partida, Mário Roque
teve a fortuna de identificar e adquirir outras peças
notáveis produzidas no mesmo contexto cultural, religioso
e artístico. Entre elas encontram-se recuados marfins
(cats. 3-6), uma rara placa de madrepérola (cat. 2), esculturas
de grande dimensão em madeira (cat. 7) e pinturas
setecentistas sobre seda (cats. 8-9), papel (cat. 10), pergaminho
(cat. 13) e vidro (cat. 14). Um testemunho de um
período já posterior encontramos no cat. 15, que encerra o
livro. A definir o âmbito do volume, o livro inicia com uma
notável pintura sobre cobre atribuída a Giovanni Niccolò
(cat. 1). Embora não seja possível determinar com certeza
se foi pintada na Índia, no Japão ou na China - ou mesmo
antes de Niccolò partir da Europa para a Ásia -, esta obra
sintetiza o tipo de imagem apresentada pelos missionários
para adoração e cópia por cristãos recém-convertidos e artistas
locais.
A concisa introdução que se segue começa por abordar,
de forma breve, a presença portuguesa na China e o seu papel
na difusão do conhecimento directo sobre o país e os
seus produtos, incluindo têxteis de seda e porcelana, tanto
nas rotas de comércio intra-regionais da Ásia como através
da Carreira da Índia até Lisboa. Em seguida, apresenta uma
crítica histórico-artística com discussão de material visual
relacionado com os marfins de temática cristã produzidos
entre o sul da China e as Filipinas. Ao fornecer uma breve
visão histórica da missão jesuíta na China, procura estabelecer
também o enquadramento necessário para a contextualização
do núcleo central de pinturas do século XVIII (cats.
8-12) apresentadas na secção de catálogo deste volume.
A ainda que breve discussão sobre marfins que se segue
na introdução muito beneficiou dos debates contínuos com
colegas, pelos quais desejo agradecer a José Manuel Casado
Paramio e Ana Paula Castro Jiménez as suas valiosas
trocas de ideias e generosidade. Estou grato em particular
a Stephanie Porras pela sua ajuda no acesso a imagens dos
marfins entalhados do Santa Margarita. Expresso também o
meu sincero agradecimento a Clement Onn, Miguel Cabral
Moncada, Sérgio Tavares, Sandra Falcão, Pedro Lobo e Pedro
Ramos Gonçalves pelo seu inestimável apoio.