Cálice com Tampa / Covered Cup (Chalice), Filipinas, séc. XVII / The Philipines 17th. c.
coco; filigrana de prata e ouro / coconut shell, silver filigree and gold
20 x 8 x 8 cm
F1362
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The presence of the Cross refers to its liturgical use during communion (Cyborium or Host Box); probably from a private chapel. / A presença da Cruz remete para uso litúrgico durante a comunhão (Cibório ou Pixide de Hóstias); provávelmente de Capela privada.
A coconut shell covered cup, or chalice, of delicately carved floral motifs, set with silver filigree mounts featuring wire rosettes and granules ornamentation. The container is defined by four large circular filigree medallions, each framed by minute, possibly gold, inlaid granules. It rests on a circular, flattened domed foot of trumpet shaped stem with two comma-shaped handles. The lid is surmounted by a rosette finial crowned by a cross, whose presence attests to the object’s liturgical purpose during the Eucharist, possibly in a private chapel context.The cover ornamental frieze, a mixture of lotus flower petals and acanthus leaves, as well as the bowl decorative motifs, are similar in design, to the delicately embossed and chased silver vessels made in Batavia (present-day Jakarta, Indonesia) in the late 17th and early 18th centuries, for storing and displaying betel leaves and areca nuts . This type of floral decoration, derived in part from contemporary European botanical prints, is evident on decorative objects produced in the Coromandel coast, Ceylon (present-day Sri Lanka), and Dutch ruled Batavia, for exporting to Europe. Illustrative of similar coconut carvings are a pair of Ceylon made bottles belonging to the Royal Collections, in The Hague (inv. MU4354/5), whose bodies feature profusely carved coconut shells of floral scrolls decoration.The cup’s silver mounts, however, are characteristic of the filigree work made in the Philippines by Chinese, Filipino and mestizo craftsmen, in which the composition makes use of a thick square-sectioned silver wire for the main motifs, in contrast with the subtler twisted wires selected for the filigree filling. A pair of covered cups, similar to the present chalice albeit of smooth uncarved surface, featuring silver cover, handles and feet, alongside a single covered cup, both in Portuguese private collections, have recently been published. The term “coconut” can refer to the whole coconut palm (Cocos nucifera L.), or to the seed, or the fruit, which botanically is a drupe, not a true nut. Seemingly, the name derives from the early Portuguese encounters with the coconut palm in the Malabar coast of India, when the latter, due to the fruit’s resemblance to a face or head, with its three stoma, or germination pores, named it coco, a word that referred to any type of bogeyman called in to frighten children into good behaviour. Identically to other fruits coconuts have three layers: the exocarp, mesocarp, and endocarp, the former two making up the “husk”. It is the endocarp, or shell, the fruit’s hardest part, that is used for carving, once scraped of the coir and outer skin, to reveal the lustrous, porous outer shell surface, and removed the kernel meat, known as copra, when dried.The coconut palm, known in the Philippines as “tree of life”, was, and does remain, fundamental in the shaping of the archipelago’s culture and economy, a fact that may explain the local production of this type of coconut vessels.
Copo com tampa ou cálice em casca de coco entalhada, minuciosamente esculpida com delicados elementos florais, com montagens em filigranas de prata decorada com rosetas de fio e grânulos em ouro.A copa tem quatro grandes reservas, medalhões circulares em filigrana, com cercadura de grânulos de ouro, embutidos no coco. A tampa é rematada por terminal floral em filigrana sobrepujado por uma cruz, o que remete para uso litúrgico durante a comunhão, possivelmente em ambiente de capela privada. Assenta num pé circular em calote hemisférica achatada, com haste em trompa invertida e duas asas em forma de vírgula. Tanto a decoração de friso de pétalas na tampa, misto de flor-de-lótus e acantos, como da copa do cálice apresentam alguns paralelos com delicadas obras de prata repuxada e cinzelada - como sejam copos e vasos para folhas de bétel e nozes de areca - produzidas em Batávia (actual Jakarta, Indonésia) entre as últimas décadas do século XVII e o início da seguinte centúria. Trata-se de uma decoração floral derivada em parte de gravuras botânicas europeias contemporâneas e que encontramos em objectos decorativos de exportação para o mercado europeu na Costa do Coromandel, Ceilão (actual Sri Lanka), e na Batávia controlada pelos holandeses. Refira-se um par de garrafas das Colecções Reais, na Haia (inv. MU 4354/5), cujo corpo é em casca de coco profusamente entalhado com enrolamentos florais, produzido no Ceilão. No entanto, a filigrana que apresenta o nosso cálice é típica das Filipinas, e foi certamente aí produzida por artesãos chineses, filipinos e mestizos, fazendo uso de fio espesso de secção quadrada para os motivos principais, em contraste com os finíssimos fios torcidos usados no preenchimento da filigrana. Um par semelhante a este cálice, embora de copa de coco lisa e com tampa, asas e pé de filigrana, junto com exemplar isolado também com tampa, em colecções particulares portuguesas, foram publicados recentemente. A palavra “coco”, do coqueiro (Cocos nucifera L.), pode referir-se tanto à semente como ao fruto, que botanicamente se designa por drupa, não sendo uma verdadeira noz. O termo aparentemente deriva dos primeiros contactos dos portugueses com o fruto na Costa do Malabar na Índia que, pela semelhança com um rosto ou cabeça, com seus poros de germinação, chamaram-no coco - palavra habitual para nomear qualquer tipo de bicho-papão, usado para assustar as crianças. Tal como outros frutos, apresenta três camadas: o exocarpo, o mesocarpo e o endocarpo lenhoso; são o exocarpo e o mesocarpo que compõem a “casca exterior”. O endocarpo ou casca, a parte mais rija do fruto de coco, foi aqui utilizado para o entalhe deste copo ou cálice, depois de raspada a casca exterior para revelar a superfície brilhante e porosa da casca e remover a polpa do interior, chamada copra quando seca. Os cocos são e têm sido fundamentais na formação da cultura e economia das Filipinas, onde a árvore é conhecida como “árvore da vida”, o que pode explicar a produção na ilha deste tipo de copos de coco.
A coconut shell covered cup, or chalice, of delicately carved floral motifs, set with silver filigree mounts featuring wire rosettes and granules ornamentation. The container is defined by four large circular filigree medallions, each framed by minute, possibly gold, inlaid granules. It rests on a circular, flattened domed foot of trumpet shaped stem with two comma-shaped handles. The lid is surmounted by a rosette finial crowned by a cross, whose presence attests to the object’s liturgical purpose during the Eucharist, possibly in a private chapel context.The cover ornamental frieze, a mixture of lotus flower petals and acanthus leaves, as well as the bowl decorative motifs, are similar in design, to the delicately embossed and chased silver vessels made in Batavia (present-day Jakarta, Indonesia) in the late 17th and early 18th centuries, for storing and displaying betel leaves and areca nuts . This type of floral decoration, derived in part from contemporary European botanical prints, is evident on decorative objects produced in the Coromandel coast, Ceylon (present-day Sri Lanka), and Dutch ruled Batavia, for exporting to Europe. Illustrative of similar coconut carvings are a pair of Ceylon made bottles belonging to the Royal Collections, in The Hague (inv. MU4354/5), whose bodies feature profusely carved coconut shells of floral scrolls decoration.The cup’s silver mounts, however, are characteristic of the filigree work made in the Philippines by Chinese, Filipino and mestizo craftsmen, in which the composition makes use of a thick square-sectioned silver wire for the main motifs, in contrast with the subtler twisted wires selected for the filigree filling. A pair of covered cups, similar to the present chalice albeit of smooth uncarved surface, featuring silver cover, handles and feet, alongside a single covered cup, both in Portuguese private collections, have recently been published. The term “coconut” can refer to the whole coconut palm (Cocos nucifera L.), or to the seed, or the fruit, which botanically is a drupe, not a true nut. Seemingly, the name derives from the early Portuguese encounters with the coconut palm in the Malabar coast of India, when the latter, due to the fruit’s resemblance to a face or head, with its three stoma, or germination pores, named it coco, a word that referred to any type of bogeyman called in to frighten children into good behaviour. Identically to other fruits coconuts have three layers: the exocarp, mesocarp, and endocarp, the former two making up the “husk”. It is the endocarp, or shell, the fruit’s hardest part, that is used for carving, once scraped of the coir and outer skin, to reveal the lustrous, porous outer shell surface, and removed the kernel meat, known as copra, when dried.The coconut palm, known in the Philippines as “tree of life”, was, and does remain, fundamental in the shaping of the archipelago’s culture and economy, a fact that may explain the local production of this type of coconut vessels.
Copo com tampa ou cálice em casca de coco entalhada, minuciosamente esculpida com delicados elementos florais, com montagens em filigranas de prata decorada com rosetas de fio e grânulos em ouro.A copa tem quatro grandes reservas, medalhões circulares em filigrana, com cercadura de grânulos de ouro, embutidos no coco. A tampa é rematada por terminal floral em filigrana sobrepujado por uma cruz, o que remete para uso litúrgico durante a comunhão, possivelmente em ambiente de capela privada. Assenta num pé circular em calote hemisférica achatada, com haste em trompa invertida e duas asas em forma de vírgula. Tanto a decoração de friso de pétalas na tampa, misto de flor-de-lótus e acantos, como da copa do cálice apresentam alguns paralelos com delicadas obras de prata repuxada e cinzelada - como sejam copos e vasos para folhas de bétel e nozes de areca - produzidas em Batávia (actual Jakarta, Indonésia) entre as últimas décadas do século XVII e o início da seguinte centúria. Trata-se de uma decoração floral derivada em parte de gravuras botânicas europeias contemporâneas e que encontramos em objectos decorativos de exportação para o mercado europeu na Costa do Coromandel, Ceilão (actual Sri Lanka), e na Batávia controlada pelos holandeses. Refira-se um par de garrafas das Colecções Reais, na Haia (inv. MU 4354/5), cujo corpo é em casca de coco profusamente entalhado com enrolamentos florais, produzido no Ceilão. No entanto, a filigrana que apresenta o nosso cálice é típica das Filipinas, e foi certamente aí produzida por artesãos chineses, filipinos e mestizos, fazendo uso de fio espesso de secção quadrada para os motivos principais, em contraste com os finíssimos fios torcidos usados no preenchimento da filigrana. Um par semelhante a este cálice, embora de copa de coco lisa e com tampa, asas e pé de filigrana, junto com exemplar isolado também com tampa, em colecções particulares portuguesas, foram publicados recentemente. A palavra “coco”, do coqueiro (Cocos nucifera L.), pode referir-se tanto à semente como ao fruto, que botanicamente se designa por drupa, não sendo uma verdadeira noz. O termo aparentemente deriva dos primeiros contactos dos portugueses com o fruto na Costa do Malabar na Índia que, pela semelhança com um rosto ou cabeça, com seus poros de germinação, chamaram-no coco - palavra habitual para nomear qualquer tipo de bicho-papão, usado para assustar as crianças. Tal como outros frutos, apresenta três camadas: o exocarpo, o mesocarpo e o endocarpo lenhoso; são o exocarpo e o mesocarpo que compõem a “casca exterior”. O endocarpo ou casca, a parte mais rija do fruto de coco, foi aqui utilizado para o entalhe deste copo ou cálice, depois de raspada a casca exterior para revelar a superfície brilhante e porosa da casca e remover a polpa do interior, chamada copra quando seca. Os cocos são e têm sido fundamentais na formação da cultura e economia das Filipinas, onde a árvore é conhecida como “árvore da vida”, o que pode explicar a produção na ilha deste tipo de copos de coco.