Bracelete Owo/Yoruba

Nº de referência da peça: 
F879

Marfim
Nigéria, Séc. XVIII (provavelmente)
Alt.: 12,7 cm; diâm.: 10,5 cm
Prov.: Coleção Comandante Alpoim Calvão, Cascais
(Para peça semelhante Vd. DUCHATEAU, Armand, Benin Tresor Royal: Collection du Museum fur Volkerkunde, Vienne, Paris, Editions Dapper, 1990, p. 85

Owo/Yoruba Bracelet
Ivory
Nigeria, probably 18th century
Height: 12.7 cm; Diam.: 10,5 cm
Provenance: Alpoim Calvão collection, Cascais

Raríssimo bracelete de Chefe / Oba do reino Owo, povo Yoruba, datada do séc. XVIII.
A pulseira, de grande impacto visual, é formada por um duplo cilindro de marfim. O interno, mais fino, é integralmente perfurado de modo a contornar as figuras entalhadas. O exterior, de maior espessura e também vazado, apresenta uma decoração em banda e em espelho, alternando duas faixas retangulares com duas ovaladas de menores dimensões. Cada uma mostra duas cenas que se desenvolvem, a partir de um encordoado com furações de onde pendem algumas contas, desde o centro e de forma centrípeta, até à periferia.
As bandas retangulares são caracterizadas por duas representações duplas, num total de quatro, de grande complexidade icónica e simbólica: num dos registos, está representado o Oba, figura central de grande expressividade, com pescoço longo, fácies achatada, olhos com pupilas proeminentes e pálpebras pesadas, lábios paralelos e separados. Usa chapéu cónico e cartucheiras ou cintas cruzadas, elementos de fantasia adotados pelos governantes de Owo e Benim. O Rei está suportado por dois subordinados que figuram de perfil. A imagem em espelho representa outros quatro guerreiros, também retratados de lado, como se o Oba estivesse rodeado pelo seu próprio exército.
Na outra banda, dois sacerdotes com o tronco em posição frontal e cabeça de perfil, seguram uma cobra e flanqueiam a imagem de um Opanifá ou Ifá - objeto de culto para oráculo – cuja moldura é circundada por mudfish . Em espelho, e também na horizontal, estão representados dois guerreiros de perfil ao lado de um crocodilo que engole um mudfish, ambos animais simbólicos de Olunkun, o Deus do reino aquático.
Seguindo o mesmo esquema decorativo, as bandas ovaladas mostram dois guerreiros de frente, de braços abertos, que seguram nas mãos serpentes desenhando um arco – símbolo de realeza.

Tal como outros objetos de marfim Owo, esta pulseira exibe um elevado nível de sofisticação que lhe é conferido não só pelas suas várias texturas e padrões, mas também pela sua densidade decorativa. A representação antropomórfica segue as características das peças de marfim Owo: fácies achatada, olhos de pálpebras pesadas e pupilas proeminentes, penteados cónicos, assim como o estilo perfurado e a composição em espelho. O virtuosismo técnico do artista que a produziu é por demais evidente nesta magnífica obra de arte.

A iconografia enaltece e representa a liderança própria do Oba do Benim ou do governante de Owo. Braceletes como este eram de uso exclusivo desses chefes e, quando exibidas no seu braço assumiam um significado intrínseco de poder e de proteção própria. A composição em espelho tem como finalidade o ser lida não só pelo governante que a usa, mas igualmente pelo observador. Por outro lado, a brancura do marfim sugere a espuma do mar e reflete a estreita ligação do Rei a Olukun, Deus do mar, razão pela qual as pulseiras produzidas neste material se destinarem exclusivamente a estes monarcas.
Produzidas a partir do século XVI, os temas e elementos decorativos destas peças de grande erudição, foram repetidos até ao século XX.
A peça em análise é muito semelhante a um exemplar que Ezio Bassani apresenta no seu estudo, atribuído ao século XVI, e que também pertence ao reino de Owo, na Nigéria . O Penn Museum, da Pensilvânia, possui uma pulseira idêntica, cópia iconográfica do bracelete aqui estudado, mas já do século XIX. Existe ainda um exemplar análogo no British Museum , que terá sido adquirido no Benim, com uma linguagem comum às peças de Owo. Ao Tesouro Real do Benim pertence uma bracelete igual, datada da mesma época, que se encontra depositada no acervo do Museum fur Volkerkunde em Viena (fig. 1).

O reino de Owo , composto principalmente por povos Yoruba, a par do antigo reino do Benim (1440-1897), essencialmente formado por etnias Edo, encontrava-se no Sul da moderna Nigéria e tinha traçado as suas origens com fortes filiações na cultura Ifé, da antiga cidade de Ile-Ifé – o berço da cultura Yoruba. Os laços históricos destes dois reinos com Ifé, contribuíram para o seu sentido de identidade, o que justifica a apropriação e a partilha de certos aspetos políticos, religiosos e artísticos.

William Fagg (1951), comparando as obras de marfim do Benim e as de Owo, conclui que existem grandes semelhanças na iconografia e na técnica, embora existam algumas características específicas que diferenciam um e outro estilo, em especial na face das imagens. Este historiador advoga ainda que os Igbesanmwan – a guilda de escultores de marfim do Benim – devem ter recrutado muitos artesões em Owo, para trabalharem nas suas oficinas. Assim se explica a grande e estreita associação entre os dois centros.

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Extremely rare 18th century ivory bracelet originally made for an Oba, a local King or Dignitary. This bracelet, of high visual impact, is designed as a double cylinder. The inner, thinner cylinder is fully punctured, in a pattern that outlines the carved decorative figures. The thicker external cylinder, equally pierced, follows a banded and mirrored decorative scheme that alternates two rectangular horizontal strips with two vertical oval ones. Each strip depicts two scenes that evolve from a pierced cord like central axis, from which hang beads, radiating outwards.

The rectangular strips exhibit two double renderings each, in a total of four, of considerable iconic and symbolic complexity. In one of the strips the Oba, the central figure, is characteristically depicted with a long neck, flattened face, prominent pupils with heavy eyelids and parallel lips. The figure is wearing a conical hat and crossed bandoleer, or sashes, both attributes adopted by the rulers of Owo and Benin. The king is assisted by two figures depicted in profile. The mirror image includes the profiles of four warriors, in an attempt to convey the idea of a Ruler surrounded by his army.

On the opposite strip, two priests depicted frontally but with profiled heads, hold a snake and surround the image of an Opan-Ifa, a cult and divination object, whose frame is circled by mudfish (schematic representation of a mud fish with legs), symbol of Olunkun, God of the aquatic kingdom.

On each of the oval vertical strips, two mirrored images of warriors, represented frontally with open arms holding snakes that form large arches above their heads, a symbol of royalty.

Similarly to other Owo objects this rare and unusual bracelet is of great aesthetic sophistication, mainly due to the diverse textures and patterns adopted and the density of its ornamentation. The style, quality and decorative details are characteristic of Owo ivory pieces, particularly in the depiction of the flattened faces with prominent pupils, heavy eyelids and conical headdresses, in the punctured detail and in the elaborate mirrored compositions. The virtuosity of the artist carver is clearly evidenced in this extraordinary masterpiece.

The iconography highlights and illustrates the leadership of the Oba from Benin or Owo. These types of bracelets were exclusively worn by these rulers and, displayed on their arms assumed an intrinsic meaning of power and protection, the mirrored composition allowing for a common reading by the wearer and by the observer. Additionally the whiteness of the ivory alludes to the sea surf reflecting the close relationship between the King and Olukun, God of the Sea, a fact that restricted the use of these ivory bracelets to these Imperial Rulers.
Bracelets like this example were produced from the 16th century onwards, adopting a decorative matrix that was repeated until the 20th century. The present bracelet is similar to the one referred by Ezio Bassani in his study, which is attributed to the 16th century and equally from the Owo Kingdom in present day Nigeria. O Penn Museum in Philadelphia, owns an identical bracelet, an iconographic copy of the bracelet described here, but of later manufacture, probably as late as the 19th century. Additionally a related example is also owned by the British Museum (Inv. Af 1898, 0623.1.), having supposedly been acquired in Benin, and of a common aesthetic language to the Owo pieces.

The Kingdom of Owo, mainly formed by Yoruba ethnic groups, together with the ancient Kingdom of Benin (1440–1897), essentially formed by Edo peoples, were situated in the south of modern day Nigeria, and had their roots in the Kingdom of Ife in the ancient city of Ile-Ife — cradle of the Yoruba culture. The historical ties between these two kingdoms and Ife, contributed to their sense of identity, justifying the ownership and sharing of certain political, religious and artistic aspects. William Fagg (1951), comparing ivory objects from Benin and from Owo, concludes that they share considerable similarities in their iconographic and technical details, albeit being possible to distinguish specific differentiating characteristics particularly in the depiction of the figures faces. This historian also suggests that the Igbesanwan — the guild of Benin ivory carvers — did possibly recruit artisans from Owo to work in its workshops, explaining the close association between the two production centres.

Former collection of Alpoim Calvão (1947–2014), one of the most important officers of the Portugese army during the colonial war, a great collector of colonial art.

  • Arte Colonial e Oriental
  • Artes Decorativas
  • Marfim, Tartaruga e Madrepérola

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