Contador com Trempe Indo-português / An Indo-Portuguese Cabinet on Stand, India, Gujarate, séc. XVII
teca, ébano marfim, pigmento e cobre dourado / teak, ebony ivory, pigment and gilded copper
105 x 66 x 40 cm
A602
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This rare late sixteenth or early seventeenth century teakwood (Tectona grandis) cabinet on stand, veneered in East Indian rosewood (Dalbergia latifolia) and ebony (Diospyros ebenum) is an outstanding example of the Indian marquetry decorated furniture made for exporting. Of sumptuous marquetry ornamentation, it is inlaid in rosewood, ebony, possibly sandalwood, ivory and green-dyed bone elements fixed to the carcass by small brass pins and mounted with pierced gilt copper fittings and large round headed tacks encircling the doors, as well as the case narrow edges.Rather large, the case features nine drawers, simulating twelve for symmetry, set in four overlapping tiers, each door front of pierced lock escutcheons. The side panels are fitted with large ring handles of openwork plates. The carpet-like decorative composition consists of symmetrically arranged flowering branches of four-petalled rosette borders. On the door fronts the prevalent foliage decoration is complemented by face-to-face pairs of male and female figures in local attire, armed Portuguese hunters and tigers and standing figures leaning on staffs, as well as pairs of elephants and peacocks.The top and lateral panels are characterised by a central section of isometric cubes alternating ebony, ivory and green-dyed bone elements. This composition is complemented by a wide floral border interspersed with armed Portuguese figures hunting tigers. An unusual decorative feature is certainly the figurative narrow band separating the outer borders from the central fields, which is populated by flowering plants, five-pointed stars within rosettes and pairs of hares positioned face to face. On the top panel a central circular medallion depicting two Portuguese men in courtly attire seating face to face on a raised platform amidst vegetation, a flowering plant emerging from a vase in between them. The cabinet stand features two identical drawers. Amongst the dense floral decoration pairs of men and women in regional attire, as if highlighting the marital implication of this important cabinet.Of doble tier stretchers, the stand prismatic structure is decorated with a colourful frieze of alternating ivory, green-dyed bone and exotic wood rosettes inlaid onto the solid rosewood carcass. The feet are in the shape of Jaṭāyuḥ (literally ‘strong wind’) vultures, Rāma’s ‘devout bird’ and Hindu demi-god. As depicted in the epic Rāmāyana, Jaṭāyuḥ is the king of vultures and Aruna’s, vehicle of the sun-God Sūrya, youngest son. As is the case with the cabinet’s overall inlaid decoration, the Jaṭāyuḥ figures are ivory inlaid onto the rosewood background and ornamented with ivory pegs, green-dyed bone and exotic wood.As is customary in Indian produced furniture under Portuguese patronage, this cabinet typology reflects a European prototype taken to Asia by Portuguese officials and merchants. Its exuberant decorative composition however, as well as its evident horror vacui, and intricate openwork and gilt copper fittings, are of local Indian origin. The cabinet overall design stands out as a major testimony to the cultural and artistic synthesis that happened following the arrival of the Portuguese in 1498. Given that sixteenth-century records mention the village of Taná, or Thane, nowadays swallowed by sprawling Mumbai, as a flourishing Muslim community of precious marquetry furniture makers, it is possible that this cabinet’s origin is precisely Thane, then included in the Northern Province of the Portuguese State of India. An unquestionable precious cabinet, it belongs to a group of rare early furniture made in India for the Portuguese market, which has only recently been identified in terms of its geographical origin, decorative inspiration – Iranian, Ottoman and European – and historical production context.
Hugo Miguel Crespo
Este raro contador sobre trempe, de teca (Tectona grandis) faixeada a sissó (Dalbergia latifolia) e ébano (Diospyros ebenum), é uma jóia do mobiliário marchetado produzido na India para exportação, entre os finais do século XVI e os inícios da centúria seguinte.
É decorado com embutidos de sissó, ébano, madeira exótica (provavelmente sândalo), marfim e osso tingido de verde, fixos com pinos de latão; a sua rica decoração é ainda sublinhada pelas copiosas ferragens de cobre dourado, recortadas e vazadas e pelas tachas semiesféricas que decoram os entrepanos, tanto do caixote, como das gavetas da trempe.
O contador apresenta nove gavetas - simulando doze, por uma questão de simetria, cada uma com seu próprio espelho de fechadura, recortado e vazado - dispostas em quatro fiadas e duas pegas, com os seus espelhos vazados, nas ilhargas. A decoração de embutidos, disposta em tapete, consiste em plantas floridas simétricas, com cercaduras de rosetas de quatro pétalas, ou quadrifólios, em marfim. Na frente das gavetas, a decoração vegetalista é entrecortada, ora por pares figurativos afrontados, femininos ou masculinos, em traje local, ora por portugueses caçando tigres, com suas armas de fogo ou de pé com seus cajados; outras, estão decoradas com pares de elefantes e pavões.
Nos campos centrais do topo do móvel e das ilhargas, sobressai o típico padrão de cubos isométricos alternando ébano, marfim e osso tingido de verde; um medalhão circular com dois portugueses vestidos à moda cortesã, sentados sobre um estrado com uma exuberante planta florida num vaso, no meio de vegetação, destaca-se no centro da face superior. Estão limitados por larga cercadura de plantas floridas, com figuras de portugueses, caçando tigres com suas armas de fogo. Um aspecto infrequente da decoração deste contador é o carácter, também figurativo, do friso que separa a larga cercadura dos campos centrais, tanto das ilhargas como do topo. Esta orla combina plantas floridas, entremeadas de rosetas de estrela pentagonal, com lebres afrontadas.
A trempe apresenta duas gavetas de maiores dimensões, onde se destacam um homem e uma mulher em traje local, por entre os elementos floridos, sublinhando o provável carácter nupcial desta importante peça de mobiliário.
A estrutura prismática da trempe, com seu travejamento duplo, apresenta colorido friso de quadrifólios alternados em marfim, osso tingido de verde e madeira exótica embutidos sobre a estrutura maciça de sissó. Os pés são recortados, em forma de abutre Jaṭāyuḥ (literalmente “vento forte”), o “pássaro devoto” de Rāma e semi-deus hindu. Ele é o rei dos abutres, tal como retratado no épico Rāmāyana, e é o filho mais novo de Aruṇa, o veículo do deus-sol Sūrya. À semelhança da restante decoração de embutidos deste móvel, a figura de Jaṭāyuḥ é embutida a marfim sobre o fundo do sissó, e ponteada por cavilhas decorativas de marfim, osso tingido de verde e madeira exótica.
Como é usual, quanto à produção de mobiliário na Índia sob encomenda portuguesa, este tipo de peça apresenta forma de origem europeia, copiando os móveis trazidos para a Ásia pelos portugueses, enquanto a sua exuberante decoração, em claro horror vacui, a par das intrincadas ferragens de cobre dourado recortadas e vazadas, é de origem indiana local.
Trata-se de um verdadeiro exemplo da síntese cultural e artística que teve lugar após a chegada dos portugueses à Índia. Dado que a documentação portuguesa do século XVI refere a aldeia de Taná - hoje parte da cidade de Mumbai (Bombaim) - na qual floresceu uma grande comunidade de artesãos muçulmanos, como origem de preciosos móveis marchetados, é muito provável que o centro de produção deste contador de mesa seja precisamente Taná, então parte da Província do Norte do Estado Português da Índia.
Este precioso contador sobre trempe pertence a um excepcionalmente raro grupo de peças de mobiliário mais recuado produzido para o mercado português e identificado apenas recentemente quanto à sua origem geográfica, fontes decorativas de inspiração (iranianas, otomanas e europeias) e contexto histórico de produção.
Hugo Miguel Crespo
Hugo Miguel Crespo
Este raro contador sobre trempe, de teca (Tectona grandis) faixeada a sissó (Dalbergia latifolia) e ébano (Diospyros ebenum), é uma jóia do mobiliário marchetado produzido na India para exportação, entre os finais do século XVI e os inícios da centúria seguinte.
É decorado com embutidos de sissó, ébano, madeira exótica (provavelmente sândalo), marfim e osso tingido de verde, fixos com pinos de latão; a sua rica decoração é ainda sublinhada pelas copiosas ferragens de cobre dourado, recortadas e vazadas e pelas tachas semiesféricas que decoram os entrepanos, tanto do caixote, como das gavetas da trempe.
O contador apresenta nove gavetas - simulando doze, por uma questão de simetria, cada uma com seu próprio espelho de fechadura, recortado e vazado - dispostas em quatro fiadas e duas pegas, com os seus espelhos vazados, nas ilhargas. A decoração de embutidos, disposta em tapete, consiste em plantas floridas simétricas, com cercaduras de rosetas de quatro pétalas, ou quadrifólios, em marfim. Na frente das gavetas, a decoração vegetalista é entrecortada, ora por pares figurativos afrontados, femininos ou masculinos, em traje local, ora por portugueses caçando tigres, com suas armas de fogo ou de pé com seus cajados; outras, estão decoradas com pares de elefantes e pavões.
Nos campos centrais do topo do móvel e das ilhargas, sobressai o típico padrão de cubos isométricos alternando ébano, marfim e osso tingido de verde; um medalhão circular com dois portugueses vestidos à moda cortesã, sentados sobre um estrado com uma exuberante planta florida num vaso, no meio de vegetação, destaca-se no centro da face superior. Estão limitados por larga cercadura de plantas floridas, com figuras de portugueses, caçando tigres com suas armas de fogo. Um aspecto infrequente da decoração deste contador é o carácter, também figurativo, do friso que separa a larga cercadura dos campos centrais, tanto das ilhargas como do topo. Esta orla combina plantas floridas, entremeadas de rosetas de estrela pentagonal, com lebres afrontadas.
A trempe apresenta duas gavetas de maiores dimensões, onde se destacam um homem e uma mulher em traje local, por entre os elementos floridos, sublinhando o provável carácter nupcial desta importante peça de mobiliário.
A estrutura prismática da trempe, com seu travejamento duplo, apresenta colorido friso de quadrifólios alternados em marfim, osso tingido de verde e madeira exótica embutidos sobre a estrutura maciça de sissó. Os pés são recortados, em forma de abutre Jaṭāyuḥ (literalmente “vento forte”), o “pássaro devoto” de Rāma e semi-deus hindu. Ele é o rei dos abutres, tal como retratado no épico Rāmāyana, e é o filho mais novo de Aruṇa, o veículo do deus-sol Sūrya. À semelhança da restante decoração de embutidos deste móvel, a figura de Jaṭāyuḥ é embutida a marfim sobre o fundo do sissó, e ponteada por cavilhas decorativas de marfim, osso tingido de verde e madeira exótica.
Como é usual, quanto à produção de mobiliário na Índia sob encomenda portuguesa, este tipo de peça apresenta forma de origem europeia, copiando os móveis trazidos para a Ásia pelos portugueses, enquanto a sua exuberante decoração, em claro horror vacui, a par das intrincadas ferragens de cobre dourado recortadas e vazadas, é de origem indiana local.
Trata-se de um verdadeiro exemplo da síntese cultural e artística que teve lugar após a chegada dos portugueses à Índia. Dado que a documentação portuguesa do século XVI refere a aldeia de Taná - hoje parte da cidade de Mumbai (Bombaim) - na qual floresceu uma grande comunidade de artesãos muçulmanos, como origem de preciosos móveis marchetados, é muito provável que o centro de produção deste contador de mesa seja precisamente Taná, então parte da Província do Norte do Estado Português da Índia.
Este precioso contador sobre trempe pertence a um excepcionalmente raro grupo de peças de mobiliário mais recuado produzido para o mercado português e identificado apenas recentemente quanto à sua origem geográfica, fontes decorativas de inspiração (iranianas, otomanas e europeias) e contexto histórico de produção.
Hugo Miguel Crespo