Ventó, Indo-português com as Armas da Família Manoel/ An Indo-Portuguese "Ventó" Cabinet with the Arms of Manoel´s Family, India, Guzarate, séc. XVII / Gujarat 17th c.
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An ebony (Diospyros ebenum) veneered teakwood (Tectona grandis) cabinet of ebony, East Indian rosewood and ivory marquetry decoration, fitted with openwork fire-gilt copper fittings. Probably made in Thane, in the Northern Province of the Portuguese State of India, it replicates an East Asian prototype known in Portuguese as ventó.
According to the earliest Japanese-Portuguese dictionary, published in 1603 as Vocabulario da lingoa de Iapam - the Nippo jisho - the Japanese term bentō, which was absorbed into Portuguese, referred, and still does, a lunch box. In fact, the original Japanese model for the ventó is known as kakesuzuri-bako (portable writing box). When it has a frontal door and strongbox like fittings it is called funa-dansu (ship chest with drawers). In such instance it is a box for seals (documents, writing paraphernalia and ink stones) and money, featuring a single hinged door, typically ornamented with intricate metal fittings and various inner drawers or compartments with doors.
Our ventó outer surfaces feature a seamless isometric cube pattern in ebony, rosewood and ivory, with plain filleted frame of alternating ivory eight-petaled rosettes and ivory and rosewood lozenges, secured to the teak carcass by brass pins. When open it reveals a typical East Asian arrangement of six drawers over four tiers: two overlapping wide drawers for storing paper, two small middle drawers and two square-shaped bottom drawers. All drawer fronts repeat identical isometric cube pattern framed by ivory fillets.
Its most striking feature is, nonetheless, its inner door decoration featuring a Portuguese heraldic shield that, albeit mistakenly inverted by the cabinet maker, is identifiable as belonging to the noble Manoel family who held the titles of Counts of Atalaia (1583) and Marquesses of Tancos (1751). Topped by a coronet, the shield’s field is party per cross: the first and fourth quarters depicting a lion, the second and third featuring a winged hand brandishing a sword.
Given this production chronology, from the late sixteenth to the early seventeenth century, it is likely that this cabinet was commissioned by Pedro Manoel de Ataíde (ca.1570-1628) who became 2nd Count of Atalaia following the death of his elder brother Francisco (1565-1624). Pedro travelled to India in 1591 and, upon his return to Portugal in 1621, was appointed Viceroy or Governor of the Algarve and later Captain-General of Portuguese-ruled Tangiers.[1]
Both the cabinet’s raw materials and decoration, along with the pierced openwork fittings, point to a Thane manufacture.[2] A writing box of identical characteristics and similar decoration (15.6 x 26.7 x 36.0 cm), belongs to a private collection.[3]
Hugo Miguel Crespo
[1] Diogo Maria d’Orey Manoel, Epítome da Família Manoel, Condes de Atalaya e Marqueses de Tancos, Lisboa, 2020, p. 31.
[2] Hugo Miguel Crespo, India in Portugal. A Time of Artistic Confluence (cat.), Porto, Blueboook, 2021, pp. 88-104; and Idem, From the Northern Province. Marquetries and ‘Lacquerware’ from Portuguese India, Lisbon, São Roque, Antiguidades e Galeria de Arte, 2024.
[3] Hugo Miguel Crespo, India in Portugal [...], p. 154, cat. 55.
Ventó de estrutura em teca (Tectona grandis) faixeado a ébano (Diospyros ebenum), decorado com marchetaria de ébano, sissó (Dalbergia latifolia) e marfim, e com ferragens recortadas e vazadas, em cobre dourado a azougue, originária provavelmente de Taná, na Província do Norte do Estado Português da Índia.
Esta peça de mobiliário replica, quanto à forma, um protótipo extremo-oriental conhecido por ventó. O termo japonês bentō, que passou para o português, segundo a definição do primeiro dicionário nipo-português, o Nippo jisho publicado como Vocabulario da lingoa de Iapam em 1603, era na verdade, e é ainda hoje, um caixa para almoço. Na verdade, o modelo original japonês para o ventó é conhecido por kakesuzuri-bako, ou “escritório portátil” que, quando apresenta porta frontal e ferragens como a de um cofre-forte, é chamado funa-dansu ou “arca de navio com gavetas”: uma caixa para selos (documentos, instrumentos de escrita e tinta em pedra) e dinheiro com uma única porta frontal com dobradiças, normalmente revestida por complexas ferragens e o interior com várias gavetas ou compartimentos com portas frontais.
Toda as faces exteriores deste ventó apresentam o mesmo padrão isométrico de cubos de ébano, sissó e marfim, com cercaduras estreitas alternando rosetas de oito pétalas e losangos de marfim com losangos de sissó, bordejadas por fino filete de marfim. Quando aberto, revela uma partição interior típica extremo-oriental, com seis gavetas dispostas em quatro renques: os dois superiores com gaveta a todo o comprimento, para guardar papel; logo abaixo, um com duas de idênticas dimensões; e no inferior, duas gavetas altas, de diferentes dimensões. As frentes das gavetas são marchetadas com padrão isométrico de cubos bordejados por simples filetes de marfim, idêntico às faces exteriores. O aspecto mais interessante desta peça de mobiliário é a decoração do interior da porta. Com idêntico padrão de cubos no campo central e cercadura estreita de rosetas e losangos, apresenta um escudo heráldico português.
Executado utilizando as mesmas técnicas encontradas neste e noutras peças desta produção, com os embutidos fixos à estrutura de teca através de pinos de latão, o escudo pode ser identificado, não obstante ter sido inadvertidamente invertido (espelhado), com o da família nobre Manoel, que obtiveram os títulos de Conde da Atalaia (1583) e de Marqueses de Tancos (1751). Sobrepujado por coronel, o campo do escudo é esquartelado; o primeiro e quarto quartéis com um leão, e o segundo e terceiro com um coto de águia com uma mão, com uma espada levantada.
Tendo em conta a cronologia desta produção, que se estende dos finais do século XVI às primeiras décadas de Seiscentos, é provável que este ventó tenha sido encomendado por D. Pedro Manoel de Ataíde (ca. 1570-1628). Feito 2.º Conde de Atalaia após a morte do seu irmão mais velho, D. Francisco Manoel de Ataíde (1565-1624), D. Pedro embarcara para a Índia em 1591 e, após regressar a Portugal em 1621, foi nomeado vice-rei ou governador do Algarve e, mais tarde, capitão-general de Tânger (Marrocos), sob domínio português.[1]
Tanto os materiais como a gramática ornamental utilizada neste ventó, assim como as ricas ferragens vazadas e recortadas, apontam para uma produção da Província do Norte do Estado Português da Índia, provavelmente Taná.[2] Um escritório (15,6 x 26,7 x 36,o cm) desta produção e semelhante decoração, pertence a uma colecção particular.[3]
[1] Diogo Maria d’Orey Manoel, Epítome da Família Manoel, Condes de Atalaya e Marqueses de Tancos, Lisbon, 2020, p. 31.
[2] Hugo Miguel Crespo, A Índia em Portugal. Um Tempo de Confluências Artísticas (cat.), Porto, Blueboook, 2021, pp. 88-104; e Idem, Da Província do Norte. Marchetados e Acharoados da Província do Norte, Lisboa, São Roque, Antiguidades e Galeria de Arte, 2024.
[3] Hugo Miguel Crespo, A Índia em Portugal [...], p. 152, cat. 44.