Yatate Namban

F1043  Raro e excepcional Yatate, conjunto de escrita portátil japonês Namban, literalmente traduzido como “suporte em seta”, sugerindo a forma de um cachimbo e decorado com temas alusivos à arte namban. Braço longo cilíndrico oco, em cobre de coloração acastanhada, com as extremidades em prata, decoradas com ornamentos em namban Karakusa1, onde se guardava o pincel de escrita. Um dos lados termina em forma de asas e o outro está reforçado por anilha que o liga a um recipiente em cobre, com a forma de um bivalve, onde se introduz a tinta sumi, embebida em tecido.

Está ornamentado com desenhos esgrafitados de cariz namban cobertos a ouro de azougue e tem uma tampa em prata relevada, cuja forma alude a um palácio japonês. A iconografia da peça faz uma clara alusão à lenda de Urashima Taro, o pescador japonês que viveu no palácio Ryugui do rei-dragão no fundo do mar – o deus Ryujin, também conhecido por Owatatsumi ou Watatsumi – uma das nove divindades nascidas a partir dos criadores ancestrais Izanagi e Izanami – o casal de deuses que se diz terem dado origem às ilhas do Japão. Esta estória faz parte dos mukashi banashi (literalmente: “contos antigos”) – equivalente ao que no Ocidente chamamos de “lenda” – com origem no meio popular e no plano do maravilhoso.

O conto Urashima Taro foi revelado pela primeira vez numa antiga compilação de manuscritos (Tango Fudoki), datada do século VIII, e repetida ao longo dos tempos, vindo a sofrer, no entanto, algumas transformações. A decoração Nambam deste Yatate reflete-se, não apenas no padrão Karakusa de linhas vegetalistas serpenteantes, inspiradas nos arabescos ou enrolamentos de folhas ocidentais, mas também nos desenhos gravados do mar, sob o palácio, e da “nau de trato”, no verso, (o Kurofune – navio negro português) sobre as ondas, que habitualmente chegava aos portos japoneses.

À semelhança daquilo que os pintores desenhavam nos biombos lacados Namban, o artista colheu ao natural os apontamentos desta embarcação, símbolo que retrata o fenómeno artístico resultante da presença lusa no arquipélago nipónico (desde 1543 a 1639) – a época dos Kirishitan (cristão), que se regula pela chegada e expulsão dos portugueses. Ao desenhar o pote de tinta, o artesão faz uma clara alusão ao conto atrás citado, optando pela representação do recipiente em bivalve, com uma tampa que reproduz um pequeno e pormenorizado Ryugu, o palácio sagrado do rei dragão, guardião protector da água e dos mares. A utilização de um bivalve como suporte, remete‑nos para a inspiração mitológica chinesa, onde se descrevem inúmeros espíritos de animais com poderes mágicos.

Um deles é a amêijoa gigante, o monstro molusco (Shen). Os textos chineses utilizam o termo “Shen” para descrever estes grandes moluscos bivalves, entre os quais, ostras, mariscos ou mexilhões, referindo-se a eles como detentores de um espírito encantatório, fonte das grandes pérolas mágicas e capaz de criar imponentes e fantásticas cidades com inúmeras paisagens ilusórias. O uso da tecnologia da escrita, no Japão, levou à invenção deste objecto portátil que substituía o conjunto tradicional, servindo melhor o transporte e a mobilidade. De acordo com o investigador Tsuchida, curador do Japan Stationary Museum, em Tóquio, durante a primeira metade do período Kamakura (1185–1333), a nova tecnologia de escrita portátil, o Yatate, era transportado principalmente pelos xoguns e samurais, preso na indumentária destes chefes guerreiros, ou no seu Obi (cinto) ao modo de um inrõ e netsuke, tornando‑se na opção de material de escrita mais conveniente.

A importância e o grande valor deste Yatate está certificada, quer pela sua raridade como exemplar de pertença pessoal de altos funcionários japoneses, quer pela fusão de simbologias japonesas e Luso-nipónicas, retratadas na decoração deste objecto, onde a “lenda” de Urashima Taro e do Palácio do Rei-Dragão se articula com a representação do “barco negro” português, símbolo das relações comerciais entre as duas civilizações, durante o período conhecido por “Comércio Namban”, e que tinha sido o ponto de partida para as ligações amistosas, culturais, sociais e religiosas, que existiram entre portugueses e japoneses.

Cobre, ouro e prata Japão, séc. XVII Dim.: 19,5 cm Copper, gilt and silver Japan, 17th c. Dim.: 19,5 cm — ROBERTS Jeremy, Japanese Mythology, U.S.A., Chelsea House Publishers, 2009. — GRAFETSTÄTTER, Andrea; HARTMANN, Sueglinde; OGIER, James, Encyclopedia Mythica, Islands and Cities in Medieval Myth, Literature and History, Frankfurt, Peter Lang, 2011. — NAMEKATA, Márcia Hitomi, O conto Japonês Urashima Tarô, U.E.P.. — MARTINS, Manuela d’Oliveira e CURVELO Alexandra (coord.), Encomendas Namban – Os portugueses no Japão da Idade Moderna (cat.), Lisboa, Fundação Oriente, 2010. — CURVELO, Alexandra, Porque Es En Todo Tan Diferente y Contrario - O Método da Acomodação na Missão do Japão, in Portugal e o Mundo nos Séculos XVI e XVII (Cat.), M.N.A.A. Exposição de 15 de Julho a 11 de Outubro, Lisboa, M.C./IMC, 2009, pp. 337–342

  • Arte de Fusão

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