Ventó

F880  Importante ventó em madeira exótica lacada, apresentando nas quatro faces raras representações de europeus. De caixa paralelepipédica, mostra no interior um gavetão e, possivelmente, teria tido uma gaveta mais estreita, agora desaparecida. Tanto a caixa, como o gavetão e a porta, apresentam um tipo de junta típico do mobiliário chinês da dinastia Ming: as arestas são arredondadas, os painéis que formam a caixa apresentam junta à meia madeira com malhetes rectos, fixados por pinos cilíndricos de madeira; a porta é formada por painel central assemblado por furo e respiga (nos pontos médios) e moldura composta por quatro secções à meia esquadria, igualmente com assemblagem de furo e respiga (típica dos tampos das mesas chinesas).

À semelhança dos ventós namban que nunca apresentam pés, este assenta sobre moldura resultante no do prolongamento inferior dos painéis laterais da caixa. A decoração consiste numa camada fina e semitransparente de laca acastanhada, urushi, provavelmente à cor natural, laca em relevo polícroma (urushi-e), colorida com pigmentos (iro-urushi) e enriquecida com maki-e, pó de prata polvilhada sobre urushi. Em todas as faces, com excepção do topo e da base, surgem figuras masculinas e femininas relevadas, de cores vibrantes sobre os belíssimos veios da madeira. Na frente, um jovem com chapéu preto e aba larga, talvez um pastor ou romeiro, com seu cajado e olhando bucolicamente para duas singelas flores; veste largo gibão e calças verdes (cor de caminho, usada no campo ou em viagem) atadas por fita vermelha, a cor das botas de cano revirado e, também, da comprida roupeta sem mangas. Na ilharga direita, duas figuras trajando roupa de caminho, aparentemente de baixa condição social.

O homem, que parece cumprimentar a senhora, usa vestuário idêntico à figura da frente, embora com calções, meias vermelhas e sapatos, e segura uma bolsa na mão direita; os seus cabelos são ruivos (como o das restantes personagens), o que pode indicar tratar-se de um cristão-novo. A mulher, quase integralmente coberta, seguindo o decorum da época, veste uma vasquinha verde listada, largo manto negro cobrindo os ombros e usa lenço branco na cabeça. Em contraste, a ilharga esquerda apresenta um casal vestido à moda cortesã de ca. 1600, trajando igualmente roupa de caminho: o cavaleiro com sua espada e punhal, veste gibão, calças e meias vermelhas, sapatos e roupeta verde debruada a ouro, com gola encanudada e chapéu; a dama usa gibão e vasquinha verde, corpinho de mangas amarelas, debruado a ouro, larga gola e véu negro.

No tardoz surge um cavaleiro de chapéu preto, com gibão vermelho, roupeta (debruada a ouro, com muitos botões), calças e meias verdes, presas com fita vermelha, e largo ferragoulo negro debruado a ouro. Dado o rigor da representação e do vestuário é muito provável que, ao contrário do que sucede com a dos europeus na arte namban, o artista tenha recebido por parte do encomendante as fontes gráficas que informaram a decoração deste ventó. Em oposição à grande maioria das tipologias de mobiliário produzidas na Ásia para exportação sob encomenda europeia, onde o papel dos portugueses foi determinante na sua génese, manufactura e subsequente comércio regional e internacional através da Carreira da Índia, o ventó surge como uma modelo pré-existente. Sabemos que, aquando da chegada dos primeiros portugueses à costa ocidental indiana, do Concão e do Malabar, o mobiliário era praticamente inexistente, resumindo-se as tipologias a caixas, bandejas e a ricos tronos usados nas cortes hindus e muçulmanas.

Ao contrário da Índia o mobiliário na Ásia Oriental, mais concretamente na China e no Japão, era amplamente usado e produzido segundo uma miríada de tipos diferenciados, muitos análogos aos europeus. Com efeito, móveis de gavetas semelhantes aos nossos escritórios e contadores, eram usuais nas habitações de burocratas e letrados chineses da dinastia Ming. Uma dessas tipologias, desconhecida dos mestres marceneiros portugueses, é o ventó, a forma que aqui nos ocupa, caracterizado por ser um pequeno móvel pseudocúbico, com gavetas de diferentes tamanhos e uma porta frontal, com dobradiças na aresta direita e fechadura na esquerda, muito portável, com asa no topo. A curiosa designação, usada na documentação coeva para nomear quase em exclusivo peças com origem chinesa – e que pode surgir com as variantes gráficas de vento, ventô, bentó ou bentô –, teria origem, segundo Sebastião Dalgado, autor do Glossário Luso-Asiático, no vocábulo malaio bentoq, ou "pequeno escritório oriental".

A importância histórica e o enorme valor documental do presente ventó, não advém apenas da rara representação de europeus nas suas faces, mas também por nos dar a conhecer uma rara peça de produção provavelmente chinesa, da qual, embora tenhamos abundante documentação sobre o seu consumo, já que as lacas chinesas foram dos primeiros produtos extremo-orientais a chegar à Europa via Lisboa, possuímos tão poucos exemplares. Apesar de se tratar de uma modesta peça nas suas dimensões, talvez object de vertù de carácter nupcial – produzida no âmbito de uma encomenda para celebrar uma aliança matrimonial, como se poderá depreender da sua iconografia, com casais ou pares de figuras masculinas e femininas – com claros sinais de uso e marcas de uma vivência atribulada que emprestam a esta peça um valor testemunhal acrescido, este ventó é um documento importante sobre as trocas culturais e artísticas, encetadas pelos portugueses no período de globalização potenciado, pelos Descobrimentos.

Madeira exótica, laca e ferro Sul da China, Província de Guangdong (?) Séc. XVII – 1ª metade Dim.: 17,5 × 16,1 × 22,7 cm Exotic wood, lacquer and iron South China, Guangdong (?) 17th c. – 1st half Dim.: 17,5 × 16,1 × 22,7 cm — CARVALHO, Pedro de Moura (ed.), O mundo da Laca. 2000 anos de História (cat.), Lisboa, Museu Calouste Gulbenkian, 2001. — CRESPO, Hugo Miguel, Trajar as Aparências, Vestir para Ser: o Testemunho da Pragmática de 1609, in SOUSA, Gonçalo Vasconcelos e, (ed.),O Luxo na Região do Porto ao Tempo de Filipe II de Portugal (1610), Porto, Universidade Católica Editora, 2012, pp. 93–148. — FERRÃO, Bernardo, Mobiliário Português. Dos Primórdios ao Maneirismo, Vol. 3, Porto, Lello & Irmão Editores, 1990.

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