Cristo Crucificado

Nº de referência da peça: 
F1041

Cristo nipo-português em marfim, da transição do século XVI/XVII, crucificado numa cruz de madeira decorada com os símbolos da paixão. A figura está adormecida, com o facies de expressão mística bem marcada e uma certa intensidade emocional. Apresenta grande detalhe anatómico, com veias e musculatura de forma convincente e características especificas reveladoras de modelo nipo-português. A cabeça é calva na região frontal, o cabelo está solto em ondulado largo, cobrindo a restante calote craniana, na parte posterior da cabeça, forma tradicional de penteado japonês, usado principalmente por Xoguns e Samurais da época Edo, que costumava estar atado e preso, em chonmage.

De cada lado da face, pende uma madeixa entrançada, simulando uma shimenawa, (literalmente “corda enrolada”) o que, na religião Xintoísta, simboliza a fronteira entre o terreno e o sagrado, procurando assinalar, deste modo, a divindade de Cristo. O rosto apresenta uma fisionomia de forte aparência nipónica, com formato ovalado ligeiramente triangular, realçado pelo cabelo e grande barba, marcados por cortes incisos e paralelos, terminando a barba em duas volutas de caracóis afrontados.

A testa é alta e arredondada, os olhos semicerrados, grandes e amendoados com pálpebras bem demarcadas e fendas oculares finas e alongadas. O nariz é bem delineado com narinas arredondadas e perfeitamente delimitadas e a boca está cerrada de lábios apertados. As orelhas mostram uma anatomia bastante natural. O corpo inerte e despido, com as costelas bem definidas, exibe uma chaga com o sangue gotejado no peito. Tem um cendal de panejamento pregueado em torno da cintura, com dobras ou laçadas laterais, distintas das chinesas ou mesmo cingalesas, mas idênticas ao exemplar japonês do Asian Civilisations Museum, em Singapura (2012–00383).

As mãos e os pés, com os dedos perfeitos e bem definidos estão atravessados por um cravo saliente. A Cruz, em pau-santo, circunscrita por dois filetes paralelos de marfim, tem vários símbolos embutidos, alusivos à Paixão de Cristo, alguns retratados à imagem de símbolos Xintoístas. O Sol e a Lua, que simbolizam o lugar de Deus Pai ou a escuridão (entre as 12 e as 15 horas) da Crucificação, enquanto Símbolos da Paixão de Cristo, são igualmente usados com carácter simbólico e animista no Xintoísmo, cuja dimensão espiritual se desenvolve em torno dos elementos naturais do Cosmos, lugar onde se encontram as principais divindades (Kamis).

No braço vertical da Cruz está aposta uma cartela em marfim com a inscrição “I.N.R.I.” delimitada por flores-de-lis. Os três cantos restantes são acentuados por chapas do mesmo material com flores de lótus, cujo significado preponderante de pureza e perfeição as coloca como sendo as flores mais sagradas do Japão, e que o escultor, mais uma vez, desenhou com o número “sagrado” de oito pétalas.

Marfim e pau-santo

Nipo-Português

Séc. XVI/XVII

Dim.: 80,0 × 55,0 cm

Ivory and rosewood

Nippo-Portuguese

Early 17th c.

Dim.: 80,0 × 55,0 cm

— Christianity in Asia – Sacred art and Visual Splendour (cat.), Singapore, Asian Civilization Museum, Singapore, 2016, pp. 188–189.

— BAILEY, Gauvin Alexander, Art on the Jesuit Missions in Asia and Latin America: 1542–1773, Toronto, University of Toronto Press, 1999.

— MARTINS, Manuela d’Oliveira, CURVELO, Alexandra (coord.), Encomendas Namban – Os portugueses no Japão da Idade Moderna (cat.), Lisboa, Fundação Oriente, 2010.

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