Caixa de Escrita

F953  Rara caixa de escrita em marfim, de formato paralelepipédico e tampa troncocónica, com decoração rebaixada e policromada, enriquecida com aplicações em prata, produzida no Decão, no centro da Índia e datável do século XVII. A decoração é característica das artes de corte dos Sultanatos do Decão, evidenciando uma tendência para preenchimento dos espaços disponíveis, pela repetição dos elementos decorativos. As paredes laterais mostram um padrão contíguo de ramalhetes vermelhos idênticos, inseridos em arcos polilobados a verde.

A caixa apresenta fino supedâneo aposto em marfim, ornamentado por friso de enrolamentos vegetalistas à cor do marfim, sobre fundo preenchido a vermelho. O fundo tem três flores de oito pontas, sendo duas vermelhas centradas numa a verde, que se destaca pelo tamanho, com um friso de marfim periférico aposto, pintado de vermelho com enrolamentos vegetalistas. A tampa, em caixotão, apresenta uma decoração rebaixada no marfim, com fundo vermelho.

No centro simula um tapete com campo alongado, a modo de friso de medalhões ovalizados, preenchidos por florões (ou estrela) e elementos fitomórficos alternados, rematado por fino emolduramento de cariz vegetalista. A aba está decorada com banda contínua de enrolamentos, que se distribuem simetricamente a partir do centro e que, tal como a moldura do painel central, e contrariamente ao seu meio, apresenta os motivos decorativos em marfim não colorido, realçado de um fundo escavado e preenchido a vermelho. O verso da tampa apresenta placa rectangular em marfim também decorada em tapete. O campo é composto por três medalhões de oito lóbulos e duas metades nas extremidades, preenchidos por decoração vegetalista estilizada, rebaixada e pintada a vermelho e castanho. O horror vacui é, também aqui, evidente na ornamentação, constituída por palmetas abertas e outros elementos vegetalistas, sobre um fundo vermelho que preenche completamente o espaço entre os medalhões, tal como na cercadura periférica. A caixa é compartimentada de acordo com a sua especificidade, para tinteiros e canetas. O fundo é decorado por enxaquetado preenchido a vermelho, enquanto as paredes laterais interiores apresentam grandes medalhões de tipo timúrida a vermelho, com centro quadrangular não colorido e estão rematados por friso de enrolamentos vegetalistas. As ferragens são em prata cinzelada, constituídas por cantoneiras, dobradiças, linguetas e remates, decoradas nas suas extremidades por flores-de-lótus.

Nos quatro cantos da tampa as arestas estão escondidas com peixes-gato ou Erethistes hara (conhecidos também por butterfly catfish), espécie comum no actual estado de Bidar, no Decão. Este peixe de rio espelha o início da vida universal em várias culturas, símbolo de fertilidade. A par desta representação animal e dos elementos da decoração, a técnica utilizada concorre para a identificação deste raro objecto como tendo sido produzido no Decão. A técnica de entalhe da superfície ebúrnea, mais concretamente rebaixada e posteriormente preenchida por fina massa colorida, aproxima-a da escaiola e do esgrafitado, técnicas de decoração utilizada nas paredes dos edifícios, do Decão e do Sul da Índia, conhecida como arte kavi, sendo exemplo os interiores das igrejas de Goa ou das fachadas dos templos de Karnataka.

Marfim policromado e prata Decão, Índia, séc. XVII Dim: 8,0 x 23,0 x 10,0 cm Polychrome ivory and silver Deccan, India, 17th c. Dim: 8,0 x 23,0 x 10,0 cm

— MICHELL, George, ZEBROWSKI, Mark, Architecture and Art of the Deccan Sultanates, Cambridge, Wolfson College, 1999. — HAIDAR, Navina Najat, SARDAR, Marika (eds.), Sultans of the South. Arts of India’s Deccan Courts, 1323–1687, New York, The Metropolitan Museum of Art, 2011.

  • Arte Colonial e Oriental
  • Artes Decorativas
  • Marfim, Tartaruga e Madrepérola

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